quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Otimismo

Acordou com o canto de um passarinho solitário, porém de timbre afinado e disposição pra manhã inteira...


Acordou sem abrir os olhos, mas sentindo o sol invadir sua casa e tocar suas pálpebras, suave e delicadamente...

Manteve os olhos bem fechados, procurando ausentar-se do mundo naquele vão entre o sonho e o estar desperto... a semiconsciência lhe permitiu notar - pela ausência de cheiros e certa dificuldade em respirar de boca fechada - que ainda estava resfriado. O elo com o sonho lhe permitiu não ligar, e explorar um sentido que estava mais do que aguçado naquela manhã...

Ouviu o barulho de água correndo não muito longe dali... ouviu o vento avançar contra uma árvore e levar embora metade de suas folhas amarelas - era outono, portanto, a árvore não oferecia resistência. Queria logo era experimentar sua folhagem nova, que demoraria um tantinho para aparecer, mas ela decidira que valia a pena esperar... e aguentar o vento despindo-a sem remorso algum, como uma criança sapeca que só quer se divertir...

Uma gota de água pingou bem na ponta de seu nariz... teve de abrir os olhos, mas não se importou. Era uma boa maneira de se acordar - ou melhor, de ser acordado. Era uma gotinha danada que se escondera das irmãs na chuva que caíra ontem à noite, e esperou até de manhã para cair no nariz do menino, que sorriu e se levantou da cama, um colchãozinho velho largado no chão, num dos único canto da casa - exceto por aquela gotinha matutina - sem goteira na noite anterior.

Logo já estava na cozinha, tomando às pressas o café da manhã com gostinho de remédio antigripe que a mãe o fizera tomar. Tinha marcado jogo com os meninos da comunidade, lá embaixo, no pé do morro, num campinho improvisado.

Passou pela casa do Seu João, onde o passarinho ainda cantava à plenos pulmões em sua gaiola apertada, pendurada no teto da varanda. Pulou o córrego que só não o incomodava hoje porque suas vias nasais ainda estava congestionadas - que sorte! -; a árvore continuava a ser despida pelo vento ousado, e ainda não caíra sobre a casa a qual mantinha-se perigosamente inclinada, obrigando o Seu Zé a se mudar prum canto mais pra cima do morro.

Um moleque, uns anos mais velhos que o menino, passou correndo pelo mesmo e foi se esconder em algum buraco da comunidade. O menino esperou pelo aviso - "a polícia tá subindo o morro" -, mas só outras crianças apareceram, correndo e sorrindo. Pique-esconde.

E o menino continuou descendo, aproveitando a bela manhã de sol depois da noite de chuva. Não tirava da cabeça que ia marcar muitos gols, pois aquele parecia ser um dia de sorte...