quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A pequena garotinha no mundo dos gigantes

Era uma vez, uma pequena garotinha que vivia em um mundo mágico, com seres fantásticos, cheio de cores e cheirinho de algodão doce.


Era uma garotinha aventureira. Short, camiseta e seus cabelos loiros sempre soltos, estava sempre pronta para explorar cada canto daquele pequeno mundo cheio de magia.


Mas um dia, ela resolveu se aventurar por caminhos desconhecidos, e, distraída como era, nem mesmo percebeu tal ato, até que se encontrou em um mundo muito diferente do seu. Um mundo onde as pessoas eram dez vezes maiores do que aquelas que conhecia, e onde tudo era muito, muito grande para ela. Era o mundo dos gigantes.


No entanto, não eram gigantes como os das histórias que lhe foram contadas e que tanto a assustavam. Ali, os gigantes não tinham a pele acinzentada e enrugada, nem o rosto coberto por verrugas e nem caretas feias e ferozes. Seus dentes eram bem brancos, e não tortos, e as unhas bem cuidadas, e não como cascos de cavalos.

E a principal diferença, como pôde perceber, era que esses gigantes não tinham o péssimo hábito de comer criancinhas, o que foi um alívio.


Esses vestiam-se elegantemente, e suas feições eram delicadas. Uns mantinham expressões sérias, outros estavam completamente descontraídos.


A garotinha logo se encantou por aquele estranho mundo novo, e decidiu que queria morar nele.


Mas uma fadinha amiga, que sempre a acompanhava em suas aventuras, à advertiu, dizendo-lhe:


- Você é pequena demais para esse mundo, pode acabar sendo esmagada! Seria muito imprudente querer morar aqui!


Tomando a advertência da fada com séria preocupação, a menina tratou logo de arranjar uma solução. Pensou por alguns minutos, e então falou, com clara convicção:


- Faça com que eu fique assim bem grande, fadinha! Me transforme também em gigante, por favor!


A fadinha alertou mais uma vez para os riscos daquela decisão, mas a menina insistia tanto, que ela acabou cedendo.


E com um leve floreio de uma varinha mágica, a pequena garotinha foi ficando grande, e maior, e tão grande que já nem mesmo conseguia ver a fadinha, tão pequenina lá em baixo, junto a seus pés.


Ficara tão grande quanto qualquer outro gigante daquele estranho mundo ao qual agora, segundo ela, pertencia.


E ainda assim, sentia-se diferente. Olhou para as pessoas ao seu redor: eram do mesmo tamanho, mas ainda não se pareciam por completo.


Abismada, procurou por sua amiga fada para que esta lhe apontasse o que ainda lhe faltava, mas não conseguiu encontrá-la – a pobre fadinha era agora pequena demais para seus olhos tão grandes, olhos de gigante.


E os gigantes estavam sempre em movimento, a menina logo percebeu. Andavam de um lado para o outro, num ritmo apressado, sem nunca cessar. Ela acabou sendo empurrada por aquela multidão, e levaram-na para lá e para cá, até que, sentindo-se completamente perdida e desorientada, ela adentrou pela primeira porta que viu a sua frente. Olhou ao redor, e pode perceber que se tratava de uma loja – uma loja de poções.


A atendente – uma mulher idosa que muito lembrava uma bruxa do mundo mágico de onde a menina viera – perguntou o que ela desejava. E a menina respondeu:


- Quero ser como os gigantes que vejo lá fora.


A velha aproximou-se devagar, e sem dizer nada, voltou-se de súbito para suas estantes, e trouxe de lá um frasco com um líquido vermelho. Desse líquido, derramou apenas uma gotinha bem no topo da cabeça da menina, e foi o bastante para que de repente uma densa fumaça a envolvesse por completo. Quando aquela fumaça finalmente se dissipou, havia um espelho à sua frente, e nele, a menina mal pode reconhecer o reflexo diante de si.


Não usava mais short nem camiseta, e seus cabelos não estavam mais soltos. Vestia-se elegantemente, e seu cabelo estava preso em um penteado estranho, tal qual das senhoras gigantes que via lá fora. E seu rosto estava pintado – não como o de um bobo da corte, mas, para ela, tão bizarro quanto, apesar de discreto.


Era agora, uma gigante de fato.


Antes que saísse dali, a velha cobrou-lhe pagamento pelo serviço. A menina nãos sabia o que poderia servir de pagamento, e a velha sugeriu que ela lhe cedesse um fio de seu cabelo. A menina achou estranho, mas por fim concordou, pensando que um só não lhe faria falta. O que ela não sabia, é que aquele fiozinho de cabelo continha parte de sua magia, da magia de seu mundo. E assim, ela perdeu parte de sua magia, uma parte bem pequena, mas que jamais seria restaurada.


Ela podia não saber, mas a velha sabia muito bem.


Quando voltou para a rua, colocaram-na para trabalhar. “Todo gigante trabalha”, era o que diziam. E logo ela estava também andando de um lado para o outro, sempre apressadamente.


E no meio daquela correria, a pequena gigante sentiu falta de casa. Tentou encontrar o caminho de volta, mas não conseguia se lembrar onde ficava. E lembrou-se de sua fadinha, pequena demais para seus olhos tão grandes.


E então lembrou-se de seu caderno mágico.


Há um tempo atrás, ela ganhara de seu pai, de presente de aniversário, um caderno mágico, no qual tudo que se desenhava, ganhava vida.


Trazia o caderno sempre consigo, dobrado ao meio cuidadosamente e guardado no bolso do short que estivesse usando. Não tinha muitas folhas, por isso, a menina só o usava em ocasiões especiais ou emergências.


E estar perdida em um mundo de gigantes era com certeza uma emergência.


Procurou por dentro das roupas novas – A antiga ainda estava ali embaixo. Decidiu então despir-se daquela fantasia que nunca devia ter vestido e então tirou o caderno do bolso do short – que sorte ainda estar ali!


Sentou-se no chão e, com o lápis que sempre trazia junto ao caderno, riscou sem hesitar traços imperfeitos, que compunham uma figura peculiarmente linda, mais do que se desenhada em medidas exatas.


Logo, tinha ali naquele papel mágico, uma linda fada.


Ela despertou devagarzinho, e pouco a pouco foi saindo do papel, apenas um desenho linear e plano, mas que logo foi ganhando formas e cores.


A menina estava tão feliz em ter reecontrado sua amiga fada que quase se esqueceu de seu pedido. Quando a fada lhe perguntou se estava bem, ela respodeu:


- Fada, sinto saudades de casa, e quero voltar. Quero voltar para meu mundo. Faça com que isso tudo seja um apenas um sonho, e faça com que eu desperte em minha casa, por favor!


A fada queria muito ajudar sua amiga, mas sabia que seria difícil realizar tal pedido em mundo com tão pouca magia. O tempo que ela havia ficado ali a enfraquecera. Mas ela decidiu tentar, alertando a menina de que se não conseguisse, ela só poderia voltar para casa depois de cem anos, e prometendo que se empenharia ao máximo.


Com seus olhinhos fechado em concentração, a fadinha sacudiu sua varinha ao redor da menina, que foi ficando cada vez mais sonolenta, até fechar completamente os olhos cair adormecida.


Depois de alguns minutos, ela voltou a abrir os olhos, mas percebeu com grande tristeza, que ainda se encontrava no mesmo lugar. Estava tudo igual, exceto uma coisa- sua fada havia desaparecido.


Talvez a fada é que tivesse sido um sonho, pensou. Afinal, como um ser tão mágico poderia existir em mundo com tão pouca magia? Talvez tenha sido só sua imaginação. Teria de ficar ali por cem anos até reecontrar sua amiga alada. E cem anos naquele mundo de gigantes, que outrora lhe parecera tão fascinante, agora parecia uma ideia assustadora.


Pegou novamente seu caderno mágico, e decidiu que não podia ficar naquele mundo estranho por tanto tempo.

Não podia desistir de tentar voltar.


Estava tão preocupada com sua fada. Será que estaria bem? Será que conseguira voltar?


Lembrou-se então de uma história antiga, que sua mãe costumava lhe contar, sobre um duende mágico muito poderoso, capaz de realizar qualquer magia, estando onde estivesse.


E apesar ter passado muito tempo desde que alguém o vira, e até mesmo dúvidas quanto se era real ou não, existiam muitas gravuras representando seu semblante.


E lembrando-se dessas gravuras, a menina retomou seu caderno nas mãos e começou a desenhar uma outra vez. Se fosse real ou não, ela teria de arriscar.


Em poucos minutos, tinha em seu caderno a figura de um homenzinho pequeno, verde e de orelhas pontudas. Ele permaneceu imóvel por um bom tempo, tanto que a menina pensou que não daria certo, mas então, o duende esboçou um leve sorriso, e começou a se levantar do papel, ganhando formas, cores e vida.


Ainda sorrindo, ele se dirigiu a menina e a agradeceu fervorosamente, pois trazendo-o até ali, ela o havia libertado de uma maldição antiga que o havia aprisionado em um mundo ainda mais distante há muito tempo atrás.


Agradecido, o duende se dispôs a conceder um pedido à menina, que simples e tristemente falou:


- Eu quero ir para minha casa.


Comovido com as súbitas lágrimas e com a intensidade de seu pedido, o duende não tardou em conceder-lhe, e mais uma vez a menina adormeceu sob um encantamento mágico.


Ao acordar, foi abrindo os olhos vagarosamente, temendo estar ainda naquele mundo estranho dos gigantes.


Mas então sentiu um leve aroma de algodão doce, e ouviu ao longe o riacho que corria ao redor da vila onde morava, e quando seus olhos estavam completamente abertos, a menina exultou de felicidade – finalmente estava de volta ao seu mundo mágico e cheio de cores.


Fechou e abriu os olhos novamente, para se certificar de que não sonhava, e tendo a certeza de que não era sonho, ficou ainda mais feliz.


Estava de volta ao seu tamanho normal também, e isso a fez lembrar-se de sua amiga fada.


Antes que se desesperasse, a fadinha apareceu ao seu lado, um tanto confusa.


- Nos voltamos? – ela perguntou.


A menina lhe respondeu que sim, e lhe falou sobre o duende que lhe ajudara. Ela pensou que ele apareceria a qualquer momento, mas passado algum tempo, como ele não aparecesse, ela começou a procurar. A fadinha a ajudou, mas mesmo assim, não o encontraram.


Voltando para o lugar onde despertara, a menina encontrou duas coisas – seu caderno mágico e uma carta.


A carta era do duende, e ele lhe dizia que apesar de tê-la ajudado, não poderia voltar para aquele mundo, seu mundo, pois ainda havia muitos mundos a explorar, e era isso o que ele queria - continuar explorando. Os duendes sempre foram muito curiosos.


Já para aquela garotinha, explorar era algo que pretendia nunca mais fazer. Mas a fada sabia que em pouco

tempo ela estaria se aventurando mundo afora outra vez, e sabiamente, lhe falou:


- Explorar e descobrir novos mundos são coisas que podemos sempre fazer, pois há muito a ser descoberto.

Mas jamais devemos nos esquecer de quem somos ou de onde viemos. Assim, poderemos sempre encontrar o caminho de volta para casa.


Logo começou a anoitecer, e as duas se despediram. Cada uma foi para sua casa. Para aquela pequena garotinha, parecia que havia passado um ano desde que saíra para se aventurar naquela tarde. Mas para seus pais, uma tarde apenas havia se passado, e eles a receberam como em qualquer outro dia de aventuras ou travessuras.


‘Como se tivesse sido um sonho’, o duende lhe escrevera.


Mas para ela, nunca iria ser. Tomou seus pais em um abraço apertado, e lhes disse que sentira muito a falta deles. Ambos estranharam o ato, mas retribuíram com a mesma intensidade, e passaram a noite inteira ouvindo a história da grande aventura que ela tivera naquele dia.


Depois de contar toda a história, a menina percebeu, tanto quanto a fada, que logo estaria se aventurando novamente, e prometeu a si mesma que, por mais longe que fosse, jamais se esqueceria de voltar para casa.


E todos foram felizes para sempre.

1 comentários:

Bia disse...

"E todos foram felizes para sempre"...

Foi engraçado notar as dificuldades dispostas por você e as soluções que 'apareciam feito mágica' para as mesmas. Foi uma cordinha imaginária que você e a Mari puxavam entre si, ou isso é bobeira minha? Uma graça a moral da história, vocês souberam construí-la muito bem no desenrolar da trama.
É um conto digno de ilustração (ou será que eu, mais uma vez, imaginei [i]demais[/i] todo o enredo?)! A linguagem simples, a fluência, as mensagens nas entrelinhas – um mundo onde todo gigante trabalha, um mundo onde não há magia -, é tudo tão ‘imaginável’!
Daí fiquei a pensar: e se o felizes para sempre não tivesse chegado? O que seria da giganta garotinha? O que seria do conto?
Bem, aplicando isso ao mundo real, o ‘felizes para sempre’ não chegaria dessa maneira. Talvez a garota tivesse que se adaptar. Moldar-se e adequar-se ao novo mundo e ainda sim, tentar de um jeito diferente, chegar ao felizes para sempre. Como fazer isso? Como? Aah, já sei: sendo duas em apenas uma!
Sabe aquelas pessoas grandes com aura brilhante, que fazem muito com pouco e transformam o simples em algo gigantesco? Então, a menina seria assim. Ela mudaria a rotina dos gigantes, mostraria um jeito novo de se viver, traria magia ao mundo deles! Ela seria garotinha eternamente. Seria Peter Pan, ou simplesmente, Pan. Faria a diferença, traria sol aos dias cinzentos, agosto aos meses enfastiosos, gás hélio aos balões! E sem se despentear, porque, afinal de contas, só se descabela quem vive se preocupando. E porque a garotinha agiria de tal modo, se estaria sempre rodeada por magia, não é mesmo? (:

Parabéns pelo conto!
Ps: adorei o template. Combina muito com ‘Chell’ ;)

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