quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O gigante e o espelho

Era uma vez um gigante muito bondoso que morava numa floresta distante.

Ele adorava ajudar os animais que viviam por lá, e gostaria muito de ajudar também os moradores de uma vila ali perto, mas sempre que se aproximava, os aldeões se afastavam ou preparavam-se para atacá-lo.

Ele não entendia muito bem o porquê, e foi conversar com um pássaro amigo.

Perguntou ao pássaro:
- Por que os aldeões têm medo de mim?

O pássaro, que gostava muito de seu amigo gigante, ficou sem jeito de responder, e com receio de magoá-lo, disse-lhe que só um espelho poderia lhe revelar essa questão.

Como não tinha um espelho, o gigante tratou logo de construir um bem grande que lhe refletisse por inteiro. Construiu-o com muito cuidado, para que só visse seu reflexo nele quando estivesse totalmente pronto.

Tendo terminado o serviço, ergueu o enorme objeto, tomando o cuidado de mantê-lo coberto por um manto. Deixou-o completamente erguido, e depois de se posicionar bem em frente ao espelho, puxou o manto que o cobria, e ao ver-se ali refletido, não pode conter a tristeza. Finalmente entendeu o motivo pelo qual era tão temido e rejeitado – era um gigante feio.

Revoltado com o próprio reflexo, ele quebrou o espelho que mais cedo havia construído, e passou a odiá-los por refletirem seu rosto feio.

E teve então uma ideia – pensou que eram os espelhos que diziam para as pessoas quem era feio e quem era bonito; talvez, se quebrasse todos os espelhos da vila, as pessoas deixariam de se preocupar com as aparências, e o aceitariam como um deles.

E foi naquela noite que ele invadiu a vila, entrou de casa em casa e quebrou cada espelho que encontrou pela frente. Grande e desajeitado, sua cabeça tocava o teto das casinhas e seus braços e pernas compridos acabavam quebrando mais do que só espelhos. Por sorte, não feriu nenhum dos aldeões, que se juntaram para expulsar o gigante da vila. Ele tentou explicar que sua intenção era destruir aquilo que não os deixava ser amigos, mas vendo que só conseguira ser ainda mais odiado, foi embora dali, completamente entristecido.

Caminhou durante toda a noite, sem se preocupar com que direção seguia. Quando começou a amanhecer, ele estava cansado e com muito sono, e por sorte, encontrou mais a frente uma enorme fazenda, onde talvez pudesse descansar.

Só que a fazenda era, na verdade, um CRG – Centro de Reabilitação de Gigantes.

Ao entrar, ele se deparou com muitos gigantes que conhecia, e até alguns parentes. E todos, assim como ele, haviam partido por se sentirem excluídos. E todos, assim como ele, eram grandes e feios.


Mas, curiosamente, naquele lugar eles não se sentiam mais assim. Apesar de não terem mudado nem um pouco desde a último vez que o gigante os viu, todos ali diziam-se mais bonitos do que eram antes, e mais felizes também.

O gigante foi procurar o dono do lugar, pois achava aquilo tudo muito estranho. Talvez o dono fosse um bruxo ou algo assim, e tivesse enfeitiçado à todos.

Para sua surpresa, não era um bruxo. Era um senhor idoso, bem pequeno e de expressão muito bondosa. E, como o gigante pôde constatar depois, também era cego.

Perguntou ao homem como os outros gigantes podiam se achar mais belos se continuavam como sempre foram. E o velho homem respondeu:

- É porque agora, não ligam para sua aparência externa. O que lhes importa é o que está dentro, sua beleza interior. E foi isso que vieram aprender aqui – à enxergar essa beleza.

- E como pode ensiná-los a enxergar, se o senhor mesmo não é capaz de fazê-lo? – o gigante perguntou, e logo se arrependeu, temendo tê-lo ofendido.

O velho sorriu, e respondeu:

- Posso não ver o mesmo que seus olhos lhe mostram, meu caro. Mas garanto que sou capaz de enxergar mais do que você pode ver. Posso, por exemplo, enxergar o quanto seu coração é bondoso, e quanto está tomado de tristeza e arrependimento.

O gigante encantou-se pelas palavras daquele velho homenzinho, e por sua enorme sabedoria, mas ainda tinha outras perguntas.

- Mas por que eles continuam aqui? Por que não voltam para suas casas?

- Porque temem os olhos do mundo lá fora. Se escondem aqui, pois apesar de serem capazes de reconhecer a beleza em si, temem o que as outras pessoas possam lhes fazer por não reconhecerem o mesmo.

O gigante se sentiu fraco ao pensar que queria ficar ali também. Mas sabia que nem ali seria capaz de esconder a sua feiúra, pois não era a de seu rosto que lhe atormentava mais – era a de seu coração. O que ele fizera na noite anterior fora uma coisa muito horrível, e ele precisava se desculpar.

Despediu-se do velho homenzinho e de seus amigos gigantes, e tomou caminho de volta para casa. Tinha esperança de que um dia, todos ali fariam o mesmo.

Depois de uma longa caminhada, pôde avistar ao longe a aldeia onde causara tantos estragos. Mas antes de se aproximar, tinha algumas coisas a fazer.

Passou o dia inteiro trabalhando duro em sua oficina, sem parar para descansar.

Na manhã do dia seguinte, ele se dirigiu à aldeia puxando um enorme carrinho carregado de coisas – panelas, mesas, cadeiras, camas, espelhos – muitos espelhos. Quando os aldeões viram-no se aproximando, ficaram alarmados, mas antes que pudessem expressar qualquer outro tipo de reação, o gigante começou a distribuir e objetos e pedidos de desculpa para todos os presentes. Comovidos com sua atitude, os aldeões aceitaram os objetos e lhe agradeceram muito, elogiando seu enorme talento em construir tais artefatos.

Convidaram-no para um grande jantar naquela noite, para agradecê-lo e pedir desculpas por todas as vezes em que lhe expulsaram da aldeia, mas o gigante já tinha preparado um jantar para todos em sua casa, e ninguém da aldeia recusou o convite.

Desde então, o gigante continuou morando em sua casa, mas sempre que podia, passava na aldeia para trabalhar junto com os outros aldeões e ajudar quem precisasse, e todos o tratavam muito bem.

E assim, viveu feliz para sempre.

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