domingo, 21 de agosto de 2011

Estrelas cadentes



Olhava as estrelas no céu, com enorme fascínio. Perdia-se no infinito estrelado do céu da noite. Era capaz de ficar horas apenas fitando-as, sem se preocupar com mais nada.




Um dia, lhe contaram sobre as estrelas cadentes. A menina, que queria saber tudo sobre as estrelas, decidiu que veria, dentre tantas estrelas no céu, ao menos uma cair.

E todas as noites, postava-se diante da janela do quarto mais alto da casa e ficava a olhar para o alto. Passado algumas horas, cansou-se, e puxou um banquinho para si. Não durou muito e uma amiga sentou-se em um banquinho ao seu lado. A menina não lhe deu muita atenção, nem mesmo lembrava de seu nome, só que começava com a letra 'E'.

Nas primeiras noites, não tivera sorte. Nem uma única estrelinha oscilou em sua posição lá no alto. Em algumas noites, a menina tinha de pedir as nuvens que se retirassem, pois lhe impediam a visão. Estas iam-se embora aborrecidas, e por vezes lhe jogavam gotas de chuva.

Por ter de ficar acordada a noite inteira, a menina dormia durante o dia, e já não descia do quarto mais alto da casa - trancava-se nele o dia inteiro, e não deixava que ninguém mais entrasse. Só aquela sua amiga cujo nome começava com a letra 'E' lhe fazia companhia.

Em uma noite, fria por sinal, a casa recebera a visita do espírito do Natal, convidando-a à comemorar e festejar. Mas a menina não desceu.

-Venha, é Natal! Estão todos comemorando! Tenho certeza de que aqui está mais quente do que aí em cima!

-Não posso descer, estou esperando minha estrela cadente. - a menina respondeu.

E então o espírito se foi, deixando-a com sua única amiga.

Vieram, em intervalos de tempo, outros espíritos festivos, mas passaram todos, recebendo a mesma resposta:

- Estou esperando minha estrela cadente.

Até que um dia, passou o Tempo, ligeiro, levando tudo e transformando o que ficou para trás. Este não a convidara para nada - veio enquanto ela dormia, e simplesmente passou.

Quando a menina despertou naquele dia, já não era capaz de se reconhecer no espelho - o rosto enrugado, os cabelos grisalhos, a pele esticada nas mãos... já não era menina, e sim uma senhora.

Estranhamente, sua amiga, ao contrário dela, não envelhecera - continuava do mesmo jeito que quando sentou-se com ela pela primeira noite diante da janela, fitando o céu. Só parecia cansada, e lhe encarava sem demonstrar qualquer emoção.

Como isso havia acontecido, ela se perguntava. O Tempo passou tão ligeiro que ela envelhecera, e ainda não tinha visto sua estrela cadente. Agora, via-se diante de um enorme dilema - se continuasse a esperar, um dia ainda veria sua estrela? E se tentasse retomar o tempo que passara, valeria a pena?

Desesperada, chamou por seus pais e irmãos. Tentou abrir a porta do quarto, mas estava emperrada, e suas mãos velhas já não tinham tanta força. Continuou chamando, mas não obteve resposta. Não havia barulho na casa tampouco, o que a fez concluir que estava vazia, e ele estava sozinha com sua única amiga, da qual agora lembrava o nome: Esperança.

Esta, pronunciando-se pela primeira vez diante do desespero da menina, lhe falou que naquele quarto, havia um baú com objetos mágicos que poderiam ajudá-la.

Mesmo sem saber qual a real função de cada objeto ou o que faria com eles, ela começou a procurar.

Encontrou um baú, e nele dois objetos, à princípio, comuns.

- Esse, é capaz de realizar qualquer desejo seu - disse-lhe a Esperança, pegando nas mãos um tubo daqueles com o qual fazemos bolhas de sabão. - E esse - continuou, pegando agora uma pequena ampulheta - é capaz de te fazer voltar no tempo.

A menina voltou a ter a mesma determinação de antes, e pegou o tubinho de bolhas de sabão. Com o Tempo ela se resolveria depois, agora o que mais importava era sua estrela.

Soprou bolhas e mais bolhas, e estas foram subindo e aproximando-se umas das outras, e juntas, formaram uma figura de início disforme, mas que logo deu formas à um homenzinho cinzento, que mais parecia fumaça - como o gênio da lâmpada de Alladin.

O gênio perguntou qual era o desejo daquela senhora, fazendo com que a menina lembrasse de sua atual aparência, e repensasse se não seria mais prudente ser acertar com Tempo primeiro. Mas logo demoveu-se da ideia e estava determinada outra vez.

- Eu quero ver uma estrela cadente.

O gênio riu da menina - ou melhor, da senhora.

- Como pode nunca ter visto uma?

Ela explicou-lhe que ficara todo aquele tempo ali, sentada, esperando, mas que nunca vira nenhuma cair diante de seus olhos.

- As estrelas são tímidas, minha cara. Gostam de surpreender - o Gênio disse, e depois continuou - Não posso pedir a uma estrela que caia, pois não tenho poder sob as coisas do Universo, e porque é algo natural demais. Mas posso lhe conceder asas, para que encontres sua estrela mais facilmente. Quem sabe se te esconderes no topo de uma nuvem...

A menina não cogitava essa ideia - as nuvens lhe tinham certa antipatia. Mas aceitou as asas, e com elas, subiu bem alto no céu.

Pensou em levar a Esperança consigo, mas decidiu deixá-la ali mesmo.

- Vou ficar lhe esperando - foram suas últimas palavras antes que a velha menina partisse.

Lá no alto, no entanto, sentiu falta da amiga. Não teve paciência de ficar esperando também, afinal, já esperara por tempo demais.

Decidiu subir ainda mais alto, e foi perguntando de estrela em estrela, se alguma delas havia caído recentemente.

Primeiro, lhe explicaram que estrelas cadentes na verdade não eram estrelas de verdade, e sim, pedras gigantes que brilhavam intensamente quando se aproximavam da Terra. E então, começaram a enumerar, e se perdiam na conta de quantas estrelas cadentes haviam cruzado o céu.

- Mas como podem ter caído tantas, e eu não ter visto nenhuma?

- Em que direção olhava? - perguntou uma estrela, no que a menina respondeu: Norte.

- Aí está! Não houveram muitas estrelas cadentes nessa direção por um bom tempo... se tivesse olhado à Sul, teria visto uma chuva delas...

A velha menina, entristecida, deixou-se cair aos pouquinhos. Seus braços já não eram mais tão fortes quanto antigamente, pois já não eram mais uma menina. E continuou caindo, agora aumentando a velocidade... quem sabe, se fosse mais rápida, não lhe tomariam lá embaixo por estrela cadente...

Foi então que viu uma bolha de sabão flutuando ali perto, e juntando a pouca força que ainda tinha, seguiu-a, esperando encontrar mais. Todavia, já estava cansada de esperar pelas coisas, e decidiu agir.

Viu que a bolha ia em direção ao mar - lá embaixo, podia discernir o litoral, o que significava que estava muito longe de casa. Pôde ver ainda uma casinha um tanto afastada, e aproximando-se dela, viu uma caixa de sabão esquecida na varanda. Pegou-a, e a levou em direção ao mar.

O vento estava forte, e ela mal conseguia se manter no alto. Sem demora, jogou todo o sabão da caixa no mar, e o vento ficou feliz em ajudá-la, como se quisesse se desculpar por estar tão violento aquela noite, soprando forte a água salgada e fazendo subir milhares e milhares de bolhas. Tantas, que quando se juntaram para formar aquela figura conhecida, ele era assustador de tão enorme que ficara.

- Você mais uma vez, minha velha? - disse o gênio, e sua voz ressoou como um trovão, o que também o surpreendeu. Ele parecia envaidecido com seu tamanho. As nuvens aglomeravam-se no céu, curiosas quanto ao destino da menina que tanto lhes ofendera.

- Tenho mais um pedido - ela disse, e sem rodeios continuou -, quero voltar para casa, quando ainda era menina e nada sabia sobre estrelas cadentes. Quero voltar no tempo e abraçar meus pais e irmãos mais uma vez. E quero que isso tudo não passe de uma lembrança, ou um sonho... eu só quero ir pra casa... - concluiu, e começou a chorar. As nuvens, comovidas, choravam também.

O gênio, comovido com as lágrimas da menina, e receoso de que as lágrimas das nuvens pudessem desmanchar sua enorme figura, concedeu-lhe logo o pedido, sem nem mesmo dirigir-lhe palavra. Teve tanta pressa, que não transformou aquela triste aventura em apenas lembrança ou sonho. Tirou-a por completo da cabeça da menina, que agora era menina outra vez...



***


Acordou cedo naquele dia, como se tivesse dormido por tempo demais. Deu um beijo de bom dia em seus pais, e a implicância começou cedo com os irmãos. Tomaram o café da manhã e logo já estavam brincando no jardim. Dali a menina viu que a janela do sotão, o quarto mais alto da casa, estava aberta, o que era incomum já que nunca ninguém entrava lá.

Ao crepúsculo, a família sentou-se à varanda e ficou vendo o sol se pôr. Falavam sobre muitas coisas, e falaram sobre estrelas cadentes.

- Nós podíamos ficar lá no sotão esperando elas caírem, seria algo incrível! - exultou o irmão mais novo.

- Ficaríamos tanto tempo esperando que acabaríamos envelhecendo sem nem mesmo nos darmos conta - comentou o pai. Ninguém mais voltou àquela assunto no decorrer da noite.

Quando já era hora de dormir, todos trocaram beijo de boa noite. Era uma noite quente, e a menina pediu que a janela de seu quarto ficasse aberta.

Distraída, olhava o horizonte enquanto o sono não vinha, encantando-se pela beleza do céu estrelado... Uma nuvem passou ligeira, como se não quisesse ser notada ou estragar a bela visão. Dava a impressão de ter uma cara enfezada, como se algo ali a desagradasse ou ofendesse. E logo se foi.

Foi então, que repentinamente, um rastro de luz cruzou o céu, tão rápido e tão brilhante, que em questão de segundos já havia sumido.

Surpresa, a menina lembrou-se do que o pai lhe disse, que envelheceriam de tanto esperar ver uma estrela cadente. E então, em uma noite qualquer e sem aviso, uma lhe surge bem em frente a sua janela...

"As estrelas são tímidas... mas gostam de surpreender..."