terça-feira, 26 de abril de 2011

Lua dos Loucos

Fui até a Lua ontem, antes de dormir – na verdade, fui na hora em que deveria estar dormindo, pois antes que o sono chegasse, a insônia veio dizer um ‘oi’. Eu lhe ofereci um copo de leite. Ela me ofereceu um de inquietação. Brindamos e fomos juntas à Lua.


Estava um caos. Uma desordem colossal. Parecia com uma Lua de um louco. Caixas mal empilhadas em todos os cantos, entre tantas outras coisas que se amontoavam por todos os lados de forma aleatória, sem possibilidade de, a princípio, distingui-los por tipo, data, teor ou qualquer outro critério de distinção. Era como se um furacão tivesse passado por ali. De fato, um dia antes, um furacão tentara entrar em meus domínios lunares, sem passaporte, sem visto e muito menos convite. Não permiti que entrasse, mas isso não o deteve – deu a volta e encontrou uma brecha em minhas fronteiras de vulnerabilidade. Só me restaram o assombro quanto ao seu poder destrutivo, a necessidade de reforçar minhas fronteiras, a bagunça para arrumar e a triste certeza de que ele voltaria uma hora ou outra, só pra não sair do padrão.


Ociosamente, comecei a colocar as coisas em ordem. Sabia que era em vão, que se conseguisse algum sucesso, seria apenas momentâneo. Sabia que era necessário, que seria pior se eu deixasse que uma desordem sobrepujasse a outra. Entendia tudo isso, e mesmo assim, aceitava com dificuldade a minha triste tarefa, resignada e frustrada.


Peguei um fiozinho de lã solta entre o emaranhado de linhas embaraçadas - meu ponto de partida - e comecei a enrolá-lo nos dedos, com cautela, para não bagunçar ainda mais. Mas foi inevitável – logo puxava mais de um fio, e um puxava um outro, e meus dedos eram poucos para tanta linha.


Por fim, deixei as linhas num canto - mesmo sabendo que elas me seguiriam onde quer que eu fosse até ficarem embaraçadas outra vez - da forma mais organizada que consegui, o que não era lá grande coisa, e me dirigi às caixas e às folhas de papel que saiam de dentro delas. O conteúdo da primeira caixa que peguei datava de tempos antigos – lembranças remotas. Percebi a ausência de algumas folhas. Fui procurá-las em outras caixas, que também estavam incompletas e que me levavam à outras caixas, que me levavam à outras... Me vi então perdida no tempo, e já não sabia o que procurava. A coisa chata em se perder no tempo, é que, muitas vezes, você se prende a comparações, descobre rancores, arrependimentos... Mas havia a parte legal também. Devia estar ali, em alguma caixa...


Deixei as caixas e as folhas de lado. Dei o melhor de mim para elas e teria de me contentar com o resultado não agradável, mas satisfatório.


Era a vez de colocar os frascos nas prateleiras. Essa era a pior parte da faxina, a mais confusa.


Comecei a juntá-los um por um, sem saber qual era qual. Sempre que um furacão passava, os rótulos se desprendiam dos frascos, e iniciava-se outra vez o processo de identificação e rotulação.


As etiquetas reservas já estavam prontas para cumprir seu encargo, e todos os frascos já estavam recolhidos. Era hora de recolocá-los em seus devidos lugares.


Peguei o primeiro frasco, abri a primeira tampa, sacudi o líquido incolor e levei a borda do recipiente até bem próximo do meu nariz. Exalei um odor suave, reconfortante, doce e delicado, e desfrutei daquele sentimento por um breve momento. Tampei o frasco e o recoloquei na estante, com a etiqueta ‘amor’. O Seguinte, não tinha cheiro, então levei-o a boca e encostei o líquido na língua, sem engolir. Tinha um gosto forte, amargo, peculiarmente agradável, mas logo repulsivo – levou a etiqueta ‘egoísmo’.


Seguiu-se felicidade, ódio, melancolia, nostalgia, angústia... Fui experimentando um por um, até que todos estivessem em seu devido lugar.


Terminei e me sentia exausta, tão exausta quanto alguém que experimentasse um turbilhão de emoções e sensações, se perdesse em suas próprias lembranças, seu presente e seus anseios e se emaranhasse em vários novelos de fios de pensamentos numa única visita à solo lunar poderia estar.


Durante todo esse tempo, a insônia permanecera ali, me observando, enquanto bebericava seu copo de leite. Ela apontou meu copo ao seu lado – estava na metade -, e me perguntou o que eu achava. Disse à ela que já havia bebido o bastante por uma noite. Ela então se foi, levando minha dose não acabada e deixando a promessa de dose extra para a próxima visita. Não consegui evitar de sorrir diante da promessa – o último frasco que etiquetei fora ‘otimismo’, logo depois de ‘euforia’; ainda estava sobre o efeito dos mesmos, e portanto, estava incoerente.


Olhei ao redor, e só o que pude dizer foi “bem, está melhor do que estava antes”. Já começava até a me sentir mais leve, e minha Lua parecia mais sã. No fim das contas, até que fora fácil colocar tudo em ordem.


Me despedi da minha Lua. Era hora de voltar ao mundo real, à realidade tangível. Mas antes... Quem sabe ainda não dava tempo de visitar um mundo mais próximo de onde me encontrava – o mundo dos sonhos.


Me dirigi à ele lentamente, tomada de cansaço e imaginando que aventura me aguardava para aquele fim de noite. Fechei os olhos e fui abrindo-os lentamente, e, para minha surpresa, abri-os em meu quarto escuro, totalmente desperta; uma luz pálida adentrava pela fresta da janela e a chuva caía forte do lado de fora. Levei alguns minutos para absorver aquilo.


Ah! Claro! Fora tudo um sonho! Eu mal entendia a minha surpresa, pois era tudo muito lógico – só em sonho uma faxina lunar seria assim tão fácil e tão bem sucedida. Caixas e frascos e novelos de fios de lã... Não era assim que funciona e eu já devia saber. Afinal, fora tudo apenas um sonho.


Tomei um gole mental daquele frasco de otimismo e tentei sorrir. Não deu muito certo. Haveria tempo para novas tentativas no decorrer do dia, não havia pressa. Era hora de voltar à realidade, ao mundo real, realidade tangível.


Queria lembrar em que parte da noite minhas costumeiras e inquietas reflexões passaram de conscientes para inconscientes. Não posso dizer que a insônia ficou me devendo visita, pois até quando eu durmo, ela está presente, pregando-me peças. E essa fora de longe sua peça mais ousada.


Minha Lua continuaria em desordem por um tempo ainda, até que eu tivesse tempo para ela, para focar-me só nela, cara a cara, só eu e minha Lua, numa conversa pacífica, ausentes de tudo e de todos, em mais uma noite insone, ou mesmo em meus sonhos. Sem caixas com folhas, sem fios de lã, sem frascos e etiquetas... Pois tudo ao que correspondiam, não se encontrava assim na Lua dos loucos. Estavam ali, é claro, só que de forma abstrata, mais difíceis de separar e identificar; não como se tivessem sido vítimas do furacão, mas como se fossem a sua origem.


Me lembrei de um momento em meu sonho, em que pensei que tinha concluído a ‘faxina’- disse que minha Lua parecia mais sã. Ali eu já devia ter notado, sem a menor sombra dúvida, que estava fora da realidade, pois minha Lua, ainda que menos confusa e menos desorganizada, jamais pareceria sã – seria sempre assim, como a Lua dos loucos...

3 comentários:

Sabrina disse...

Ah que conto mais doido Mi. Você tava muito viajada quando escreveu né? Sério, cheio de... Metaforas (?) Você nunca usou tão bem sua imaginação num conto como usou nesse, sério. Adoro isso, adorei o conto, tá muito lindo, muito delicado, sabe? Trata bem os sentimentos, os pensamentos e tals... Faz a gente imaginar tudo direitinho, como se fôssemos mandados pra nossa própria lua ao ler a descrição da lua dela. ;_; Enfim, eu amei, como sempre tá perfeito, sua perfeita. sz

Bia disse...

Ah, foi difícil achar um jeito de comentar este conto. "Very, very difficult..."

Joana Dalva, você acredita se eu disser que vi muito mais de você neste conto?
Há você no meio de toda essa bagunça, no 'tornado violento', na veemência da organização.
Quem lhe julga uma pessoa de personalidade fácil, mal sabe que você esconde dentro de si um turbilhão de emoções. Isso se torna claro a cada pequena frase, a cada novo conto. Menina, você é surpreendente!Quantas figuras de linguagem, quanta ironia, quanto sentimento!
Consegui 'ver' todo o processo; imaginei você lá na lua, cheirando os frasquinhos de emoções. Óbvio que me identifiquei, e quem não o faria? Atire a primeira pedra quem nunca tentou organizar os sentimentos, separá-los com cautela e tornar tudo 'normal' outra vez.
Organizar lembranças realmente é difícil. Você puxa uma e outras vão emergindo, sem sequer terem sido convidadas. E nós, simples humanos que somos, nos descobrimos pouco. Pouco para tanto sentimento.
Parabéns por ter completado mais um de seus 'desafios pessoais'! O conto está belíssimo e você já sabe disso. Você também sabe que escreve muitíssimo bem e que sua sensibilidade é genial, mas vale a pena reforçar. (rs)
Vamos lá, quero mais de você! Mostre mais desse turbilhão que mal conheço!

Dando uma de "Joana Dalva": esse conto não desbancou meu favorito. A-ha.

Potter Ramsés disse...

Quer seja metáfora, quer seja metafísica, quer seja ilusão ou realidade, a vida é uma inconstante igual para todos. Mas neste conto, vi além de incomensurável genialidade da autora, igualdades que valem para todos as pessoas.

PARÁBENS!

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