sábado, 30 de abril de 2011

'Fugindo ao padrão' - agradecimentos especiais!

Respondendo aos comentários feitos ao conto “Lua dos Loucos”:


Não tenho o costume de fazer isso - responder comentários aqui pelo blog -, mas hoje abro excessão para minhas gêmulas tagarelas... (hihi!), Maria Sabrina e Maria Bia.


Daí, pensei em responder ali, pelo espaço para comentários mesmo. Fiquei meio sem saber o que escrever, e resolvi digitar pelo processador de texto – quando estivesse pronto, era copiar e colar e postar. Simples.


Mas quem disse que foi simples? Super quebrei cabeça pra conseguir responder aos comentários à altura, e, quando finalmente consegui, dei uma olhada no resultado – ficou enorme!


Então, já que estava saindo dos padrões, que fosse em grande estilo. Mas como? Simples outra vez: elevá-lo ao nível de uma postagem!


Então vamos lá!


Maria Sabrina...


Sua opinião é muito importante para mim, ainda mais quando são palavras assim tão doces...! Significa muito para mim você ter gostado do meu conto, mesmo mesmo – é muito gratificante ver que as pessoas que amo admiram o que escrevo. Obrigada, por tudo! Não sabe a felicidade que sinto por poder chamar-te de amiga...!


E adoro quando diz que algo que escrevi fez com que se sentisse melhor, ou se identificasse, coisa assim – me sinto importante...! (rs) É um prazer servi-la!



Maria Bia...


Foi difícil, foi? Mas parece que foi tão fácil... (rs)


Obrigada por comentar, significa muito pra mim, e o que disse pra Sabrina vale pra ti também – é muito gratificante ter esse apoio das pessoas que amo. Agradeço também pelos elogios (fiquei até um pouco sem graça...) e congratulações.


E acredito sim, Maria Bia, que encontrou mais de mim nesse post, pois esse é, de fato, o conto mais pessoal até agora, simplesmente por explorar minha própria mente ao desenvolvê-lo, minha própria Lua... Ao menos, foi o que tentei fazer.


O quê? Quer mais? Mais de mim?? Ok, então. Vou cedendo aos pouquinhos, com cuidado pra não ‘sufocar’ ninguém... (rs). E não concordo quando diz que mal me conhece – às vezes, penso até que me conhece melhor do que eu mesma... Ou talvez, eu esteja confundindo as coisas... Acho que você me ‘lê’ bem – me compreende, sabe? Como quando descobre coisas como o pretexto por baixo do chapéu que uso na cabeça... -, e à cada leitura, vai conhecendo um pouco mais desse turbilhão que sou... Ah, agora entendi... acho...!


E, cá entre nós: ‘seu’ favorito será ‘nosso’ favorito-compartilhado ainda por um bom tempo...!



Nesse conto, mais que em qualquer outro, eu precisava dessa ‘aprovação’ de pessoas como minhas gêmulas queridas, porque esse me deixou muito insegura, de verdade. Foi o que tomou mais de mim, em vários sentidos. Estou muito contente que tenham gostado!


Muito obrigada por me darem a certeza de que sempre poderei contar com vocês ao meu lado!


PS: Gostaria de dedicar esse conto à minha amiga Lívia. O motivo? Simples. É esse aqui, ó:

Certo dia, quando mostrei para ela o conto “Coração de Margarina”, ele me fez um comentário que me deixou... ‘encucada’: “Micheulle, (é, ta certo, é Micheulle, jeito carinhoso e tals...), seus contos sempre começam assim, com ‘Era um belo dia de sol’, ou ‘Era uma tarde chuvosa’...”; ou seja: meus contos começavam falando sobre o ambiente da estória, o clima. Fui constatar. Para minha surpresa, era verdade!


Portanto, dedico à ela o primeiro conto que não se inicia fazendo referência climática!


Beijos!

Joana Dalva. Ou Michelle – fica à critério de quem ler. =]


*E obrigada também ao Potter, que acabei de ver que comentou também!

terça-feira, 26 de abril de 2011

Lua dos Loucos

Fui até a Lua ontem, antes de dormir – na verdade, fui na hora em que deveria estar dormindo, pois antes que o sono chegasse, a insônia veio dizer um ‘oi’. Eu lhe ofereci um copo de leite. Ela me ofereceu um de inquietação. Brindamos e fomos juntas à Lua.


Estava um caos. Uma desordem colossal. Parecia com uma Lua de um louco. Caixas mal empilhadas em todos os cantos, entre tantas outras coisas que se amontoavam por todos os lados de forma aleatória, sem possibilidade de, a princípio, distingui-los por tipo, data, teor ou qualquer outro critério de distinção. Era como se um furacão tivesse passado por ali. De fato, um dia antes, um furacão tentara entrar em meus domínios lunares, sem passaporte, sem visto e muito menos convite. Não permiti que entrasse, mas isso não o deteve – deu a volta e encontrou uma brecha em minhas fronteiras de vulnerabilidade. Só me restaram o assombro quanto ao seu poder destrutivo, a necessidade de reforçar minhas fronteiras, a bagunça para arrumar e a triste certeza de que ele voltaria uma hora ou outra, só pra não sair do padrão.


Ociosamente, comecei a colocar as coisas em ordem. Sabia que era em vão, que se conseguisse algum sucesso, seria apenas momentâneo. Sabia que era necessário, que seria pior se eu deixasse que uma desordem sobrepujasse a outra. Entendia tudo isso, e mesmo assim, aceitava com dificuldade a minha triste tarefa, resignada e frustrada.


Peguei um fiozinho de lã solta entre o emaranhado de linhas embaraçadas - meu ponto de partida - e comecei a enrolá-lo nos dedos, com cautela, para não bagunçar ainda mais. Mas foi inevitável – logo puxava mais de um fio, e um puxava um outro, e meus dedos eram poucos para tanta linha.


Por fim, deixei as linhas num canto - mesmo sabendo que elas me seguiriam onde quer que eu fosse até ficarem embaraçadas outra vez - da forma mais organizada que consegui, o que não era lá grande coisa, e me dirigi às caixas e às folhas de papel que saiam de dentro delas. O conteúdo da primeira caixa que peguei datava de tempos antigos – lembranças remotas. Percebi a ausência de algumas folhas. Fui procurá-las em outras caixas, que também estavam incompletas e que me levavam à outras caixas, que me levavam à outras... Me vi então perdida no tempo, e já não sabia o que procurava. A coisa chata em se perder no tempo, é que, muitas vezes, você se prende a comparações, descobre rancores, arrependimentos... Mas havia a parte legal também. Devia estar ali, em alguma caixa...


Deixei as caixas e as folhas de lado. Dei o melhor de mim para elas e teria de me contentar com o resultado não agradável, mas satisfatório.


Era a vez de colocar os frascos nas prateleiras. Essa era a pior parte da faxina, a mais confusa.


Comecei a juntá-los um por um, sem saber qual era qual. Sempre que um furacão passava, os rótulos se desprendiam dos frascos, e iniciava-se outra vez o processo de identificação e rotulação.


As etiquetas reservas já estavam prontas para cumprir seu encargo, e todos os frascos já estavam recolhidos. Era hora de recolocá-los em seus devidos lugares.


Peguei o primeiro frasco, abri a primeira tampa, sacudi o líquido incolor e levei a borda do recipiente até bem próximo do meu nariz. Exalei um odor suave, reconfortante, doce e delicado, e desfrutei daquele sentimento por um breve momento. Tampei o frasco e o recoloquei na estante, com a etiqueta ‘amor’. O Seguinte, não tinha cheiro, então levei-o a boca e encostei o líquido na língua, sem engolir. Tinha um gosto forte, amargo, peculiarmente agradável, mas logo repulsivo – levou a etiqueta ‘egoísmo’.


Seguiu-se felicidade, ódio, melancolia, nostalgia, angústia... Fui experimentando um por um, até que todos estivessem em seu devido lugar.


Terminei e me sentia exausta, tão exausta quanto alguém que experimentasse um turbilhão de emoções e sensações, se perdesse em suas próprias lembranças, seu presente e seus anseios e se emaranhasse em vários novelos de fios de pensamentos numa única visita à solo lunar poderia estar.


Durante todo esse tempo, a insônia permanecera ali, me observando, enquanto bebericava seu copo de leite. Ela apontou meu copo ao seu lado – estava na metade -, e me perguntou o que eu achava. Disse à ela que já havia bebido o bastante por uma noite. Ela então se foi, levando minha dose não acabada e deixando a promessa de dose extra para a próxima visita. Não consegui evitar de sorrir diante da promessa – o último frasco que etiquetei fora ‘otimismo’, logo depois de ‘euforia’; ainda estava sobre o efeito dos mesmos, e portanto, estava incoerente.


Olhei ao redor, e só o que pude dizer foi “bem, está melhor do que estava antes”. Já começava até a me sentir mais leve, e minha Lua parecia mais sã. No fim das contas, até que fora fácil colocar tudo em ordem.


Me despedi da minha Lua. Era hora de voltar ao mundo real, à realidade tangível. Mas antes... Quem sabe ainda não dava tempo de visitar um mundo mais próximo de onde me encontrava – o mundo dos sonhos.


Me dirigi à ele lentamente, tomada de cansaço e imaginando que aventura me aguardava para aquele fim de noite. Fechei os olhos e fui abrindo-os lentamente, e, para minha surpresa, abri-os em meu quarto escuro, totalmente desperta; uma luz pálida adentrava pela fresta da janela e a chuva caía forte do lado de fora. Levei alguns minutos para absorver aquilo.


Ah! Claro! Fora tudo um sonho! Eu mal entendia a minha surpresa, pois era tudo muito lógico – só em sonho uma faxina lunar seria assim tão fácil e tão bem sucedida. Caixas e frascos e novelos de fios de lã... Não era assim que funciona e eu já devia saber. Afinal, fora tudo apenas um sonho.


Tomei um gole mental daquele frasco de otimismo e tentei sorrir. Não deu muito certo. Haveria tempo para novas tentativas no decorrer do dia, não havia pressa. Era hora de voltar à realidade, ao mundo real, realidade tangível.


Queria lembrar em que parte da noite minhas costumeiras e inquietas reflexões passaram de conscientes para inconscientes. Não posso dizer que a insônia ficou me devendo visita, pois até quando eu durmo, ela está presente, pregando-me peças. E essa fora de longe sua peça mais ousada.


Minha Lua continuaria em desordem por um tempo ainda, até que eu tivesse tempo para ela, para focar-me só nela, cara a cara, só eu e minha Lua, numa conversa pacífica, ausentes de tudo e de todos, em mais uma noite insone, ou mesmo em meus sonhos. Sem caixas com folhas, sem fios de lã, sem frascos e etiquetas... Pois tudo ao que correspondiam, não se encontrava assim na Lua dos loucos. Estavam ali, é claro, só que de forma abstrata, mais difíceis de separar e identificar; não como se tivessem sido vítimas do furacão, mas como se fossem a sua origem.


Me lembrei de um momento em meu sonho, em que pensei que tinha concluído a ‘faxina’- disse que minha Lua parecia mais sã. Ali eu já devia ter notado, sem a menor sombra dúvida, que estava fora da realidade, pois minha Lua, ainda que menos confusa e menos desorganizada, jamais pareceria sã – seria sempre assim, como a Lua dos loucos...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tire um tempo para refletir e absorver o que é sério e importante, e só então volte para encarar as banalidades... Volte para o mundo...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Momento nostalgia... só um pouquinho...

Agradecimento feitos, é hora de um pouquinho de nostalgia – que combina muito com a tarde chuvosa de hoje.


Numa tarde de quinta, entre cinco e seis horas, eu estava no curso de Informática, usando o computador do laboratório para criar meu blog – que era a atividade do dia; era aula extra, e todos, depois da aula explicativa, deveriam criar um blog, partindo do pressuposto de que “todo mundo tem algo para mostrar ao mundo”. Essa foi a frase inspiradora do professor, e tenho que admitir, fiquei tomada de ansiedade e euforia. Gritava lá no fundinho de minha mente: “Sim, é isso aí! Eu tenho algo pra te mostrar, mundo!”.


Fui pro laboratório ansiosa de verdade. Depois de preencher os dados de cadastro e definir o endereço do blog, parti para a escolha do template. O nome fora fácil – já havia pensado nele antes. Se chamaria “Don’t get me wrong” – “Não me entenda mal”. Era esse o meu lema, minha frase depois de ter escutado uma música intitulada assim.


Template... eram muitas opções, mas eu fui rápida – escolhi um num tom de rosa e lilás, com alguns floreios de enfeite, bem “fofis”, se é que me entendem. Algo assim... que mostrasse um outro lado de mim. Foi o que conclui um tempo depois, quando minha amiga comentou que esperava um blog super descolado, quando lhe disse que havia feito um. Esperava algo que remetesse à minha imagem de roqueira, durona, coisa e tal, e não um todo meigo, floral, assim... “fofis”.


Enfim, a primeira postagem foi um poema antigo, de minha autoria, Intitulado “Eu queria”. Era o poema que eu havia me esforçado mais para concluir. Assim que postei, fiquei toda animada com a idéia de que pessoas que eu nem conhecia iriam ler algo escrito por mim. Imaginem minha alegria quando procurei pelo meu blog num site de pesquisa e ele apareceu, com meu nome – O Google sabia que eu existia! Eba!


Fui pra casa e não me agüentei, tinha de postar logo outra coisa. E tinha em mãos uma crônica recém saída do forno, “A magia do outono”. Mas eu não tinha internet em casa. E aí, o que eu fiz? Corri pra Lan House, com a folhinha na mão e ideias na cabeça!


Um ano se passou, e agora já são mais de 40 postagens, e tenho seguidores, e tenho comentários muuuito legais... já troquei de template, de nome – de “Don’t get me wrong” para “Um lugar entre rosas e anjos...” -, e não sei como será à partir daqui. Espero que ainda venham muitas postagens! E, no decorrer de um ano, vim, por meio desse recurso de divulgação, mostrando à conhecidos e desconhecidos, outras faces de mim, além de ter conseguido amizades por meio do mesmo.


“Meu fiel retrato é minha poesia”, afirmo em um de meus poemas. Minhas poesia, meus contos e pensamentos, crônicas... tudo o que consta neste blog, contém pedacinhos de mim.


E – vou ser sincera agora – me faltam palavras para concluir este post, então vou deixar assim, sem uma conclusão, que é pra passar a ideia de que ainda temos muito pela frente, que não encerra por aqui – o que na verdade é só pretexto para inibir a chatice de minha falta de criatividade momentânea... não é enganação, meus bens. É só jogo de cintura, aprenderam? Fazer com que algo chato se torne algo legal!


Um super beijo à todos, e um último pedido: quero que continuem me lendo, me descobrindo, me conhecendo... Eu estarei fazendo o mesmo.


Michelle Bezerra.

É ANIVERSÁRIO DO MEU BLOG!

Eu poderia começar esse post de uma forma estatística – falando das mais de 900 visualizações, ou as 42 postagens, ou dos 24 seguidores, dos 61 comentários no total... Tudo ao longo de 365 dias, o que nos resumiria à, em média, quase 3 visualizações por dia, 3 postagens por mês, 2 novos seguidores por mês, quase 9 comentários por semana... Tudo estatisticamente -, mas não. Meu negócio não são números, entendem?


Poderia dizer o quanto estou orgulhosa por tudo o que postei neste blog durante esses 365 dias que se passaram, mas... não. Sou uma pessoa muito humilde.


Poderia dizer o quanto sou lenta e preguiçosa – afinal, um ano se passou em só constam no blog 42 postagens?! -, mas também não – tenho amor próprio, no final de tudo!


O que eu realmente quero dizer, é obrigada, um grande e sincero obrigada à todos e todas que acompanharam meus “suspiros poéticos e literários” – ah... já disse o quanto gosto de chamá-los assim? – e ainda me deram a honra de saber que o que eu escrevia agradava, que o que era postado, estava sendo lido e propagado, e para um artista – seja de que ramo for -, nada é mais importante e gratificante do que saber que suas obras estão sendo apreciadas!


Ás vezes penso se, algum dia, quem sabe, chegarei a publicar – ou mesmo a escrever – um livro. Não sei se chegarei lá um dia, tenho esperanças, é claro. Mas, por hora, me contento e muito com a idéia de que as pessoas que mais amo, e ou admiro, e tenho a honra de poder compartilhar da amizade, apreciam o que escrevo. E me contento ainda com a certeza de que se, num futuro distante, eu realmente chegar a publicar um original, essas pessoas estarão na fila de autógrafos, e se forem somente essas pessoas e mais ninguém, eu já fico muito muito contente!


Muito obrigada à todos vocês que visitam meu blog!

sábado, 2 de abril de 2011

Coração de Margarina...

Quando minha mãe me acordou naquela manhã, eu já estava muito assustada. Tinha seis anos, e era meu primeiro dia de aula na 1ª série. Ansiosa, animada, assustada, arrepiada, amedrontada... me revezando em sentimentos que começam com "A".


Pensava em como havia sido na pré-escola, e em como seria diferente agora, na primeira série.

Mas ao ficar de frente para o portão da escola - mesmo com minha mãe ao lado e meu pai no carro logo atrás, sorrindo orgulhoso, incentivante e provavelmente já ciente do que viria à seguir -, percebi que só o prédio e as crianças seriam diferentes, o resto iria ser exatamente igual - eu choraria...!

Eu chorei. Lembro de dizer à minha mãe que estava com dor de barriga, agora não sei se de nervoso mesmo ou como um falso pretexto para minhas lágrimas abundantemente vergonhosas. Não queria largar da minha mãezinha de jeito nenhum. De fato, não larguei. Ela teve que me acompanhar até a sala de aula e me colocar sentadinha na carteira, sob o olhar de todas as outras mães e seus filhinhos de olhos sequinhos. Por que não nasceram todos chorões para que pudessem me apoiar?! As crianças deveriam ser mais unidas e solidárias, e quando uma chorasse, todas chorassem também - e acho que acabei de pintar o quadro dos horrores de todas as mães...!

Acho que ganhei fama logo no primeiro dia. Chamavam-me de "A Chorona". E minha mãe, sendo mãe e boa mãe, não ficou de fora - chamavam-na "A Mãe da Chorona". Até hoje a abordam assim: "Oi, você é a mãe da chorona! Como ela está? Chorando muito?"... Ah, o amargo preço de da fama... as pessoas simplesmente não te esquecem!

Fiz minha primeira grande amizade também. Ela sentava atrás de mim na sala de aula e suas primeiras palavras para mim foram: "Oh, chora não..." - que lindinha... mal sabia que me consolaria pelos próximos dez anos!

E os anos se passavam... e as lágrimas continuavam caindo, e a fama continuava aumentando - não querendo ser sensacionalista, mas acho que até virei boato nas escolas vizinhas...!

A questão era que eu não parava de chorar e chorava por tudo. E eu não era e nem sou uma pessoa infeliz!! Por que será que eu chorava e choro tanto? A única certeza que tenho até hoje é que minhas glândulas lacrimais são super-hiper-mega-master-blaster-plus-sensíveis à qualquer oscilação de emoções. E o que mais? Talvez um pouco de auto-piedade... eu me via chorando e pensava: "Ah, tadinha de eu...", e chorava ainda mais!

Quando aquilo começou a me perturbar de verdade - acho que foi no dia em que a professora ensinou os derivados do leite e a diferença entre manteiga e margarina: "Manteiga é mais gordurosa, sempre prefiram margarina!" -, fui conversar com meu pai à respeito. Perguntei bem inocentemente: "Pai, por que eu choro tanto?". Seria demasiado previsível se eu disser que chorei?...

Meu pai, que já gostava de filosofar, me colocou no colo e contou uma história.

"Era uma vez, uma garotinha muito esperta e sorridente, que parecia estar sempre feliz. Mas, como todo mundo, ela ficava triste às vezes, só que ninguém percebia".

"Por quê?" perguntei.

"Por que ela não chorava. Nunca chorou. E quando ela percebeu isso, ficou ainda mais triste. E mesmo assim, ainda não chorava.

Todos vinham falar com ela, mas ninguém percebia o quanto ela sofria. Até que um dia ela fugiu para a floresta, onde decidira viver pelo resto de sua vida.

Os aldeões passaram a procurar por ela, pois seus pais estavam muito preocupados.

Eles chamavam seu nome e em seguida se calavam, esperando ouvir o som de seu riso sapeca, que era o que mais conheciam da menina. Achavam que ela estava em algum tipo de brincadeira. Mas não ouviram nada.

Não muito distante deles, a menina estava oculta por debaixo de folhas de samambaias, bem quietinha, tentando chorar. Mas ela não conseguia, não sabia como fazer, não conhecia o ato de chorar, e então desistiu. Quis dormir, fechar seus olhos para sempre, já que deles não saía nada.

Foi então que ouviu um barulho estranho - parecido com de asas batendo - e, em seguida, passos tão leves que mal se faziam ouvir e vinham se aproximando.

Abriu os olhos devagar e viu um anjo.

Ela não disse nada, e ele ficou olhando. Quando falou, era a voz mais bela que ela já ouvira. E ele perguntou:
- Por que você está triste?

- Como sabes que estou triste? - ela retrucou. - Como sabes, se não estou nem chorando? Acho que eu tenho olhos de vidro e coração de gelo, que é como meu pai diz de gente que não chora...

- Seu coração é doce e quente - o anjo falou -, e seus olhos são como o céu de noite, são infinitos... Mas sua alma chora, e está perdida nesse infinito. Tem medo de se mostrar...

A menina ficou assombrada. Não era assombro de medo, horror. Era de outra coisa, mas não sabia explicar...

- Está tudo bem - o anjo garantiu. - Eu estou aqui para proteger-te e reconfortar-te. Não quero vê-la assim tristonha. Não tenha medo de mostrar sua alma. Ela é bela.

E, naquele momento, sua respiração acelerou e ficou difícil engolir. Sentiu uma aflição no peito, bem no coração, e sentiu que algo escorria de seus olhos. Ainda mais assombrada, levou os dedos aos cantos dos olhos, e, ao afastar uma das mãos, percebeu em seu dedinho uma gota de água que reluzia sob a luz do luar. Era a sua primeira lágrima e a coisa mais linda que já vira em todo o mundo. Ela sorriu, e foi pegando lágrima por lágrima, colocando uma em cada dedo, mas algumas escorriam por seu rosto, molhando suas bochechas, e ao libertar o que para ela era um sinal de tristeza profunda, sentiu muita felicidade.

Continuou à olhar para suas pequenas gotinhas, pensava em como brilhavam. Pensou que seus olhos estavam brilhando da mesma maneira.

Eram tão lindas, que pediu ao anjo que lhe fizesse um favor.
- Quero que eternize o brilho de minhas lágrimas, para que todos os dias, até quando não chore, eu possa vê-las.

O anjo respondeu:
- Vou eternizá-las assim como as vejo em seus olhinhos... brilhando no infinito do céu da noite; vou transformá-las em estrelas!

- Não só de minhas lágrimas, transforme em estrelas todas as lágrimas dos olhos de todo o mundo!

O anjo se levantou, deu um beijo na testa da menina e alçou voo. A menina continuou olhando para o céu. De repente, de uma em uma, as estrelas foram surgindo no céu escuro, que brilhava tanto quanto os olhos da menina, que eram infinitos...

A menina voltou para sua aldeia, e sempre que chorava, era a pessoa mais feliz do mundo, e o céu cada vez mais estrelado...

E fim!"

Meu pai terminou a história e esperou que eu falasse.

"Então... chorar é bonito?" perguntei.

"Sim, porque é quando você revela sua alma. Nunca se envergonhe disso. A menina temia ter um coração de gelo, mas, na verdade, o coração dela era assim igual ao seu: coração de manteiga."

Meu pai sorriu, mas eu me lembrei da lição da professora naquela manhã e discordei:

"Eu? Coração de manteiga? É margarina, que manteiga é mais gordurosa... Até parece nome de história... Coração de Margarina...!"


*Dedicado à minha amiga Bia - que entende melhor que ninguém esse "coração de margarina" - e com uma referência especial à minha amiga Sabrina - que me disse "Oh, chora não" no meu primeiro dia de aula...!