quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Nas Noites de Céu Estrelado

Eu queria muito começar esta história com “Era um belo dia de sol”, mas a verdade é que não era. Era época de chuva forte, muito forte. Eu não me lembro, de fato, mas é o que sempre dizem quando pergunto. Dizem que muitos perderam muita coisa. E que eu não fui a única a perder tudo, principalmente a família.

Desde então, o orfanato passou a ser meu lar. Orfanato é como chamam este lugar, porque é cheio de órfãos, ou órfãs, assim como eu. Orfantório ou guarda-orfãos também são termos cabíveis. Particularmente, gosto de guarda-orfãos.

Tinha cinco anos quando vim para cá. Diziam que era um milagre eu ter sobrevivido, e que havia muita terra. Diziam sempre isso, “havia muita terra...”

A vida ali era satisfatória. Já tive quatro anos para me acostumar. Havia dor, às vezes, e algumas noites eram muito frias. Mas tínhamos uns aos outros – as tias que cuidavam de nós nos ensinavam a valorizar isso. Essas coisas faziam-me pensar no orfanato como se fosse remédio – não são tão agradáveis, mas nos fazem bem.

E tínhamos a promessa. A promessa de que um anjo viria nos buscar, um para cada um de nós.

E eu ainda tinha meu melhor amigo. Nós brincávamos sempre, e isso nos fazia esquecer das coisas ruins.

Um dia, eu o esperei no lugar de sempre, debaixo do carvalho no jardim, mas ele não apareceu.

Procurei-o em todo lugar, mas não o encontrei. Fui perguntar à tia Joana se ela sabia dele. Ela me disse que um anjo viera buscá-lo, e que ele agora começaria uma vida nova e feliz com sua nova família.

Por dias, aquilo me entristecera. Mas, com o tempo, fiquei feliz por ele. Seu anjo enfim viera, e agora ele seria realmente feliz.

Voltei a falar com tia Joana, querendo saber sobre esses anjos. Ela me disse que eles vinham buscar as crianças para viverem com eles em suas famílias, e que um dia o meu chegaria.

E foi naquela mesma noite, que eu quis que meu anjo viesse.

Eu não sabia quando viria, mas supus que apareceria a noite. Imaginei-o vindo numa noite estrelada, entrando por minha janela e me levando para a felicidade.

Por várias noites, quando não chovia e eu podia ver as estrelas no céu, eu ficava na minha janela esperando pelo anjo. Mas ele não vinha.

Pensei que talvez não pudesse me ver ali naquela janela escura. Foi então que, em todas as noites estreladas, eu passei a esperar pelo meu anjo debaixo do carvalho, no jardim.

Eu ficava a noite inteira olhando para o céu, esperando, esperando... Quando dava por mim, estava em minha cama, envolta em cobertas. Pensara que anjo me colocara ali, por não saber qual era o meu verdadeiro desejo, e por eu não estar acordada para lhe dizer. Estava então decidido: eu não podia adormecer.

Por várias noites eu tentei, e em todas falhara. Eu adormecia em algum momento da noite, e despertava em minha cama todas as manhãs...

Na próxima noite, eu deixaria uma carta para o anjo. Assim, quando viesse, dessa vez saberia qual era o meu desejo de fato.

Aconteceu que naquela noite, eu senti os braços do anjo me colocando na cama, e, emocionada e ansiosa, abri os olhos. Mas não foi o anjo que eu vira – era a tia Joana.

Eu senti a raiva deixar meus olhos molhados. Eu gritei com ela. Depois que ela saiu do quarto, com lágrimas nos olhos também, tentei me acalmar. As outras crianças no quarto me encaravam, mas eu as ignorava. Quando finalmente a calma chegou, veio com uma triste conclusão – os anjos não existem.

Alguns dias se passaram. Choveu em muitos deles. Nos primeiros dias, eu via a tia chegando, toda molhada da chuva, mas eu não falava com ela. Depois de uns dias, não a vi mais. Diziam que ela adoecera – pneumonia.

Depois de uns dias, eu me senti culpada por tê-la magoado, e quis me desculpar. Fui perguntar à diretora do orfanato quando ela voltaria, mas o que ouvi fora pior do que eu podia imaginar.

- Ela não voltará. Eu sinto muito, criança. A saúde já estava frágil desde tempos...

Chovia muito naquela noite, e a dor corroia meu coração. Eu queria que parasse. Desejei desesperadamente. Eu precisava de um anjo para me tirar dali. Eu queria felicidade e conforto.

Fui para debaixo do carvalho, sentei-me e esperei. Eu não podia ver as estrelas, mas talvez elas pudessem me ver e conceder o meu pedido.

A chuva cessou. O céu começou a se abrir na noite e eu sabia que as estrelas logo apareceriam. A aurora se aproximava no horizonte e eu temia que não houvesse tempo – que as estrelas se fossem antes de me saudar.

Um raio de sol cruzou o céu naquele instante, e eu o vi – me anjo vinha até mim. Por um momento, brilhava tanto, que não pude ver seu rosto. Quando o vi, fiquei estupefata – era a tia Joana. Ela veio até mim, caminhando, e me tomou nos braços, carinhosamente. Quis indagar onde estava meu anjo, mas as palavras não me vinham.

Ela me levou para dentro de uma casa, mas não parecia o orfanato. Ainda assim, era familiar. Havia pessoas lá dentro, e sorriam para nós. Eram-me familiares também.

A tia me levou até o quarto, e me colocou na cama, envolvendo-me com a coberta, como sempre fez. Ela se aproximou e me deu um beijo na testa. Quando finalmente se afastou, foi que eu pude ver suas asas. Ela começou a brilhar.

Acordei debaixo do carvalho, sozinha. Sentia muito frio. Não havia quem me carregasse para dentro naquela manhã. Deitei-me outra vez e desejei poder dormir para sempre.

A Rosa do meu Jardim

Abras as asas, linda flor

Que a aurora já se faz
As lágrimas que o sereno orvalhou
Não as chore nunca mais

Deixa o brilho perdurar
Que o diamante da noite, brilha mais durante o dia
Deixa o vento o diamante semear
Que a semente é quente na brisa fria

Fica aqui comigo e me faz companhia
Deixa eu vê-la sorrir para mim
Deixa o vento para o mundo espelhar
A beleza que refletes no meu jardim

Abra as asas, linda flor
As pétalas divinas, divindade graciosa
Ainda que fincada no meu jardim, parece voar
E deixa-nos a imaginar se é poesia ou se é rosa...

Dedicado à uma amiga especial, Sabrina - que meus poemas continuem pondo um sorriso em seu rosto e sendo conforto para seu coração!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um Novo Ano Começa...

Um novo ano começa. Novos planos para articular. Nós sonhamos, e pedimos à esperança que nos acompanhe. Nós caminhamos, e cada passo renovado que damos tem o peso do mundo, e mesmo assim, voamos. Mas ainda não é o bastante – as nuvens cinza perduram no céu. Nós as sopramos, e pedimos ao céu que nos banhe em azul, e ao sol, pedimos que seja a fonte para nosso próprio brilho – somos estrelas do dia.

As nuvens que persistem, não as afastamos – convidamo-as para celebrar conosco, e pedimos que traga chuva. E à chuva, que nos molhe, permitimos que nos lave, mas não queremos que nos machuque; que nos deixe derramar águas também, mas de alegria, e não de dor ou de perda. Outras águas já o fizeram.

Almejamos a perfeição, porém cheia de traços imperfeitos – queremos nos sentir humanos, afinal.

Desejamos tanto, e tantas coisas... E muitas vezes só é preciso um belo dia de sol, ou uma fina chuva, uma bela paisagem, um toque da Natureza, e nos sentimos inteiros. Todos nossos desejos estão ali e não nos falta mais nada. Nos sentimos em paz.

E então pensamos: “Que tipo de magia é esta – tão pura e tão vasta; tão simples e tão extraordinária”?

Alguns diriam que não é magia, é simplesmente a Natureza. É de fato uma boa resposta, todavia – perdoem-me a presunção -, eu tenho uma melhor: é a Magia da Natureza.

Queremos tanto, e tantas coisas... Todos anseiam por algo. Pergunto – por mera cortesia; já tenho minha convicção a respeito -: Teria a Natureza seus próprios anseios, seus próprios desejos?

Como já citei, estou convicta a respeito. Sim, Ela tem.

Mas a Natureza não fala. Como saberemos o que realmente quer? Quem falará por Ela?

Resposta: Ninguém. A Natureza fala por si só. Nós é que precisamos escutar. Ela tem gritado para nós – suas águas batem em nossas portas, seus ventos em nossas janelas, e suas árvores... Jazem mortas em enormes sepulturas de blocos de tijolo e torres fumarentas – seus corpos cremados e/ou mutilados nos são úteis, afinal.

E nós, somos úteis, necessários à Ela?

Utilidade talvez não seja nosso ponto de reciprocidade em nossa relação. Mas antes de prosseguir, vamos inverter a questão.

A Natureza é útil, necessária para nós?

Eu penso que poderia terminar por aqui, e já seria o bastante. Mas pretendo seguir as regras tal qual minha professora ensinou – tenho a introdução e o desenvolvimento. Falta ainda a conclusão.

Talvez esta seja minha maior ousadia, mas quero ser porta-voz da Natureza (e desse modo, abrangendo todo o planeta Terra), só por hoje, por esta noite em que escrevo. Não que Ela precise. É apenas meu desejo. Não me importo se não é conveniente – tenho um dom para inconveniência, e estou sempre me desculpando por isto (um amigo bem sabe disso...), mas hoje não vou.

A Natureza quer respeito – quer respirar sem que seus pulmões sejam substituídos por insuficiência; quer cantar sem ser ignorada ou censurada; quer explorar o mundo que lhe pertence, sem precisar de visto e sem barreiras que impeçam seu caminho. Quer viver, e quer ser livre, e natural.

Somente mais uma pergunta: Um convívio pacífico, entre homem e natureza, é possível?

Onde há uma relação de troca, você nunca tira mais do que pode devolver. É necessário equilíbrio.

Talvez esta seja a chave de tudo – equilíbrio. E na atual situação, sensatez e consciência se fazem igualmente necessárias.

Pensei em uma frase impactante para este final, mas só fui capaz de encontrar um termo – aquecimento global. Dá-nos muito o que pensar. Acho que causa impacto, então é assim que encerro. Obrigada.