quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Otimismo

Acordou com o canto de um passarinho solitário, porém de timbre afinado e disposição pra manhã inteira...


Acordou sem abrir os olhos, mas sentindo o sol invadir sua casa e tocar suas pálpebras, suave e delicadamente...

Manteve os olhos bem fechados, procurando ausentar-se do mundo naquele vão entre o sonho e o estar desperto... a semiconsciência lhe permitiu notar - pela ausência de cheiros e certa dificuldade em respirar de boca fechada - que ainda estava resfriado. O elo com o sonho lhe permitiu não ligar, e explorar um sentido que estava mais do que aguçado naquela manhã...

Ouviu o barulho de água correndo não muito longe dali... ouviu o vento avançar contra uma árvore e levar embora metade de suas folhas amarelas - era outono, portanto, a árvore não oferecia resistência. Queria logo era experimentar sua folhagem nova, que demoraria um tantinho para aparecer, mas ela decidira que valia a pena esperar... e aguentar o vento despindo-a sem remorso algum, como uma criança sapeca que só quer se divertir...

Uma gota de água pingou bem na ponta de seu nariz... teve de abrir os olhos, mas não se importou. Era uma boa maneira de se acordar - ou melhor, de ser acordado. Era uma gotinha danada que se escondera das irmãs na chuva que caíra ontem à noite, e esperou até de manhã para cair no nariz do menino, que sorriu e se levantou da cama, um colchãozinho velho largado no chão, num dos único canto da casa - exceto por aquela gotinha matutina - sem goteira na noite anterior.

Logo já estava na cozinha, tomando às pressas o café da manhã com gostinho de remédio antigripe que a mãe o fizera tomar. Tinha marcado jogo com os meninos da comunidade, lá embaixo, no pé do morro, num campinho improvisado.

Passou pela casa do Seu João, onde o passarinho ainda cantava à plenos pulmões em sua gaiola apertada, pendurada no teto da varanda. Pulou o córrego que só não o incomodava hoje porque suas vias nasais ainda estava congestionadas - que sorte! -; a árvore continuava a ser despida pelo vento ousado, e ainda não caíra sobre a casa a qual mantinha-se perigosamente inclinada, obrigando o Seu Zé a se mudar prum canto mais pra cima do morro.

Um moleque, uns anos mais velhos que o menino, passou correndo pelo mesmo e foi se esconder em algum buraco da comunidade. O menino esperou pelo aviso - "a polícia tá subindo o morro" -, mas só outras crianças apareceram, correndo e sorrindo. Pique-esconde.

E o menino continuou descendo, aproveitando a bela manhã de sol depois da noite de chuva. Não tirava da cabeça que ia marcar muitos gols, pois aquele parecia ser um dia de sorte...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Introduzindo... contos de fadas...!

Foi numa tarde qualquer em meio a um daqueles jogos de tabuleiros, que uma amiga muito especial - irmã de uma amiga também muito especial, e amiga da minha irmã que é tão especial quanto... - e eu começamos a inventar estórias, sentadas no tapete da sala que, segundo dizem, é lugar de criança... (e também bichinhos de estimação, mas isso não vem ao caso...).


Começava assim a rodada do "era uma vez", onde uma de nós começava a contar um causo qualquer e a outra dava continuidade, e assim íamos, sempre intercalando...

Talvez eu estivesse malvada ou moralista demais naquele tarde - tentei de qualquer forma estabelecer finais não muito convencionais a contos de fadas, onde os personagens não estavam de todo contentes, mas nem por isso assim tão infelizes, ora... (eu só queria que eles aprendessem a lição, sabe?...)

Mas aquela tarde-quase-noite não era de malvadeza ou moralismo excessivo: era a tarde-quase-noite da luta incessante pelo 'felizes para sempre'...

E minha amiga lutou bravamente para conquistar o final feliz para cada história - até fez surgir, em um dos contos que postarei a seguir, um duende super-hiper poderoso cujo feitiços não podiam ser desfeitos (ou confundidos com sonhos) por nada nesse mundo...!

Ao final da brincadeira - que durou menos de uma hora -, tínhamos em nossas mãos... ou melhor, em nossas lembranças fresquinhas, três contos que, por mais simples que fossem, não vi possibilidade de serem esquecidos.

Foi aí que tive a ideia de redigi-los e postá-los aqui no blog, pra que todo mundo pudesse ler a apreciar uma arte que a gente fez brincando.

Bem, faz um tempinho já que tive essa ideia, e um tempinho também que as estórias estão redigidas e prontas para serem postadas...

Só tava faltando um post de introdução, que demorei demais para elaborar, diga-se de passagem...

Mas enfim, finalmente está pronto, e sem mais delongas, apresento-lhes...


Por Mariana Oliveira e Michelle Bezerra.

A pequena garotinha no mundo dos gigantes

Era uma vez, uma pequena garotinha que vivia em um mundo mágico, com seres fantásticos, cheio de cores e cheirinho de algodão doce.


Era uma garotinha aventureira. Short, camiseta e seus cabelos loiros sempre soltos, estava sempre pronta para explorar cada canto daquele pequeno mundo cheio de magia.


Mas um dia, ela resolveu se aventurar por caminhos desconhecidos, e, distraída como era, nem mesmo percebeu tal ato, até que se encontrou em um mundo muito diferente do seu. Um mundo onde as pessoas eram dez vezes maiores do que aquelas que conhecia, e onde tudo era muito, muito grande para ela. Era o mundo dos gigantes.


No entanto, não eram gigantes como os das histórias que lhe foram contadas e que tanto a assustavam. Ali, os gigantes não tinham a pele acinzentada e enrugada, nem o rosto coberto por verrugas e nem caretas feias e ferozes. Seus dentes eram bem brancos, e não tortos, e as unhas bem cuidadas, e não como cascos de cavalos.

E a principal diferença, como pôde perceber, era que esses gigantes não tinham o péssimo hábito de comer criancinhas, o que foi um alívio.


Esses vestiam-se elegantemente, e suas feições eram delicadas. Uns mantinham expressões sérias, outros estavam completamente descontraídos.


A garotinha logo se encantou por aquele estranho mundo novo, e decidiu que queria morar nele.


Mas uma fadinha amiga, que sempre a acompanhava em suas aventuras, à advertiu, dizendo-lhe:


- Você é pequena demais para esse mundo, pode acabar sendo esmagada! Seria muito imprudente querer morar aqui!


Tomando a advertência da fada com séria preocupação, a menina tratou logo de arranjar uma solução. Pensou por alguns minutos, e então falou, com clara convicção:


- Faça com que eu fique assim bem grande, fadinha! Me transforme também em gigante, por favor!


A fadinha alertou mais uma vez para os riscos daquela decisão, mas a menina insistia tanto, que ela acabou cedendo.


E com um leve floreio de uma varinha mágica, a pequena garotinha foi ficando grande, e maior, e tão grande que já nem mesmo conseguia ver a fadinha, tão pequenina lá em baixo, junto a seus pés.


Ficara tão grande quanto qualquer outro gigante daquele estranho mundo ao qual agora, segundo ela, pertencia.


E ainda assim, sentia-se diferente. Olhou para as pessoas ao seu redor: eram do mesmo tamanho, mas ainda não se pareciam por completo.


Abismada, procurou por sua amiga fada para que esta lhe apontasse o que ainda lhe faltava, mas não conseguiu encontrá-la – a pobre fadinha era agora pequena demais para seus olhos tão grandes, olhos de gigante.


E os gigantes estavam sempre em movimento, a menina logo percebeu. Andavam de um lado para o outro, num ritmo apressado, sem nunca cessar. Ela acabou sendo empurrada por aquela multidão, e levaram-na para lá e para cá, até que, sentindo-se completamente perdida e desorientada, ela adentrou pela primeira porta que viu a sua frente. Olhou ao redor, e pode perceber que se tratava de uma loja – uma loja de poções.


A atendente – uma mulher idosa que muito lembrava uma bruxa do mundo mágico de onde a menina viera – perguntou o que ela desejava. E a menina respondeu:


- Quero ser como os gigantes que vejo lá fora.


A velha aproximou-se devagar, e sem dizer nada, voltou-se de súbito para suas estantes, e trouxe de lá um frasco com um líquido vermelho. Desse líquido, derramou apenas uma gotinha bem no topo da cabeça da menina, e foi o bastante para que de repente uma densa fumaça a envolvesse por completo. Quando aquela fumaça finalmente se dissipou, havia um espelho à sua frente, e nele, a menina mal pode reconhecer o reflexo diante de si.


Não usava mais short nem camiseta, e seus cabelos não estavam mais soltos. Vestia-se elegantemente, e seu cabelo estava preso em um penteado estranho, tal qual das senhoras gigantes que via lá fora. E seu rosto estava pintado – não como o de um bobo da corte, mas, para ela, tão bizarro quanto, apesar de discreto.


Era agora, uma gigante de fato.


Antes que saísse dali, a velha cobrou-lhe pagamento pelo serviço. A menina nãos sabia o que poderia servir de pagamento, e a velha sugeriu que ela lhe cedesse um fio de seu cabelo. A menina achou estranho, mas por fim concordou, pensando que um só não lhe faria falta. O que ela não sabia, é que aquele fiozinho de cabelo continha parte de sua magia, da magia de seu mundo. E assim, ela perdeu parte de sua magia, uma parte bem pequena, mas que jamais seria restaurada.


Ela podia não saber, mas a velha sabia muito bem.


Quando voltou para a rua, colocaram-na para trabalhar. “Todo gigante trabalha”, era o que diziam. E logo ela estava também andando de um lado para o outro, sempre apressadamente.


E no meio daquela correria, a pequena gigante sentiu falta de casa. Tentou encontrar o caminho de volta, mas não conseguia se lembrar onde ficava. E lembrou-se de sua fadinha, pequena demais para seus olhos tão grandes.


E então lembrou-se de seu caderno mágico.


Há um tempo atrás, ela ganhara de seu pai, de presente de aniversário, um caderno mágico, no qual tudo que se desenhava, ganhava vida.


Trazia o caderno sempre consigo, dobrado ao meio cuidadosamente e guardado no bolso do short que estivesse usando. Não tinha muitas folhas, por isso, a menina só o usava em ocasiões especiais ou emergências.


E estar perdida em um mundo de gigantes era com certeza uma emergência.


Procurou por dentro das roupas novas – A antiga ainda estava ali embaixo. Decidiu então despir-se daquela fantasia que nunca devia ter vestido e então tirou o caderno do bolso do short – que sorte ainda estar ali!


Sentou-se no chão e, com o lápis que sempre trazia junto ao caderno, riscou sem hesitar traços imperfeitos, que compunham uma figura peculiarmente linda, mais do que se desenhada em medidas exatas.


Logo, tinha ali naquele papel mágico, uma linda fada.


Ela despertou devagarzinho, e pouco a pouco foi saindo do papel, apenas um desenho linear e plano, mas que logo foi ganhando formas e cores.


A menina estava tão feliz em ter reecontrado sua amiga fada que quase se esqueceu de seu pedido. Quando a fada lhe perguntou se estava bem, ela respodeu:


- Fada, sinto saudades de casa, e quero voltar. Quero voltar para meu mundo. Faça com que isso tudo seja um apenas um sonho, e faça com que eu desperte em minha casa, por favor!


A fada queria muito ajudar sua amiga, mas sabia que seria difícil realizar tal pedido em mundo com tão pouca magia. O tempo que ela havia ficado ali a enfraquecera. Mas ela decidiu tentar, alertando a menina de que se não conseguisse, ela só poderia voltar para casa depois de cem anos, e prometendo que se empenharia ao máximo.


Com seus olhinhos fechado em concentração, a fadinha sacudiu sua varinha ao redor da menina, que foi ficando cada vez mais sonolenta, até fechar completamente os olhos cair adormecida.


Depois de alguns minutos, ela voltou a abrir os olhos, mas percebeu com grande tristeza, que ainda se encontrava no mesmo lugar. Estava tudo igual, exceto uma coisa- sua fada havia desaparecido.


Talvez a fada é que tivesse sido um sonho, pensou. Afinal, como um ser tão mágico poderia existir em mundo com tão pouca magia? Talvez tenha sido só sua imaginação. Teria de ficar ali por cem anos até reecontrar sua amiga alada. E cem anos naquele mundo de gigantes, que outrora lhe parecera tão fascinante, agora parecia uma ideia assustadora.


Pegou novamente seu caderno mágico, e decidiu que não podia ficar naquele mundo estranho por tanto tempo.

Não podia desistir de tentar voltar.


Estava tão preocupada com sua fada. Será que estaria bem? Será que conseguira voltar?


Lembrou-se então de uma história antiga, que sua mãe costumava lhe contar, sobre um duende mágico muito poderoso, capaz de realizar qualquer magia, estando onde estivesse.


E apesar ter passado muito tempo desde que alguém o vira, e até mesmo dúvidas quanto se era real ou não, existiam muitas gravuras representando seu semblante.


E lembrando-se dessas gravuras, a menina retomou seu caderno nas mãos e começou a desenhar uma outra vez. Se fosse real ou não, ela teria de arriscar.


Em poucos minutos, tinha em seu caderno a figura de um homenzinho pequeno, verde e de orelhas pontudas. Ele permaneceu imóvel por um bom tempo, tanto que a menina pensou que não daria certo, mas então, o duende esboçou um leve sorriso, e começou a se levantar do papel, ganhando formas, cores e vida.


Ainda sorrindo, ele se dirigiu a menina e a agradeceu fervorosamente, pois trazendo-o até ali, ela o havia libertado de uma maldição antiga que o havia aprisionado em um mundo ainda mais distante há muito tempo atrás.


Agradecido, o duende se dispôs a conceder um pedido à menina, que simples e tristemente falou:


- Eu quero ir para minha casa.


Comovido com as súbitas lágrimas e com a intensidade de seu pedido, o duende não tardou em conceder-lhe, e mais uma vez a menina adormeceu sob um encantamento mágico.


Ao acordar, foi abrindo os olhos vagarosamente, temendo estar ainda naquele mundo estranho dos gigantes.


Mas então sentiu um leve aroma de algodão doce, e ouviu ao longe o riacho que corria ao redor da vila onde morava, e quando seus olhos estavam completamente abertos, a menina exultou de felicidade – finalmente estava de volta ao seu mundo mágico e cheio de cores.


Fechou e abriu os olhos novamente, para se certificar de que não sonhava, e tendo a certeza de que não era sonho, ficou ainda mais feliz.


Estava de volta ao seu tamanho normal também, e isso a fez lembrar-se de sua amiga fada.


Antes que se desesperasse, a fadinha apareceu ao seu lado, um tanto confusa.


- Nos voltamos? – ela perguntou.


A menina lhe respondeu que sim, e lhe falou sobre o duende que lhe ajudara. Ela pensou que ele apareceria a qualquer momento, mas passado algum tempo, como ele não aparecesse, ela começou a procurar. A fadinha a ajudou, mas mesmo assim, não o encontraram.


Voltando para o lugar onde despertara, a menina encontrou duas coisas – seu caderno mágico e uma carta.


A carta era do duende, e ele lhe dizia que apesar de tê-la ajudado, não poderia voltar para aquele mundo, seu mundo, pois ainda havia muitos mundos a explorar, e era isso o que ele queria - continuar explorando. Os duendes sempre foram muito curiosos.


Já para aquela garotinha, explorar era algo que pretendia nunca mais fazer. Mas a fada sabia que em pouco

tempo ela estaria se aventurando mundo afora outra vez, e sabiamente, lhe falou:


- Explorar e descobrir novos mundos são coisas que podemos sempre fazer, pois há muito a ser descoberto.

Mas jamais devemos nos esquecer de quem somos ou de onde viemos. Assim, poderemos sempre encontrar o caminho de volta para casa.


Logo começou a anoitecer, e as duas se despediram. Cada uma foi para sua casa. Para aquela pequena garotinha, parecia que havia passado um ano desde que saíra para se aventurar naquela tarde. Mas para seus pais, uma tarde apenas havia se passado, e eles a receberam como em qualquer outro dia de aventuras ou travessuras.


‘Como se tivesse sido um sonho’, o duende lhe escrevera.


Mas para ela, nunca iria ser. Tomou seus pais em um abraço apertado, e lhes disse que sentira muito a falta deles. Ambos estranharam o ato, mas retribuíram com a mesma intensidade, e passaram a noite inteira ouvindo a história da grande aventura que ela tivera naquele dia.


Depois de contar toda a história, a menina percebeu, tanto quanto a fada, que logo estaria se aventurando novamente, e prometeu a si mesma que, por mais longe que fosse, jamais se esqueceria de voltar para casa.


E todos foram felizes para sempre.

O gigante e o espelho

Era uma vez um gigante muito bondoso que morava numa floresta distante.

Ele adorava ajudar os animais que viviam por lá, e gostaria muito de ajudar também os moradores de uma vila ali perto, mas sempre que se aproximava, os aldeões se afastavam ou preparavam-se para atacá-lo.

Ele não entendia muito bem o porquê, e foi conversar com um pássaro amigo.

Perguntou ao pássaro:
- Por que os aldeões têm medo de mim?

O pássaro, que gostava muito de seu amigo gigante, ficou sem jeito de responder, e com receio de magoá-lo, disse-lhe que só um espelho poderia lhe revelar essa questão.

Como não tinha um espelho, o gigante tratou logo de construir um bem grande que lhe refletisse por inteiro. Construiu-o com muito cuidado, para que só visse seu reflexo nele quando estivesse totalmente pronto.

Tendo terminado o serviço, ergueu o enorme objeto, tomando o cuidado de mantê-lo coberto por um manto. Deixou-o completamente erguido, e depois de se posicionar bem em frente ao espelho, puxou o manto que o cobria, e ao ver-se ali refletido, não pode conter a tristeza. Finalmente entendeu o motivo pelo qual era tão temido e rejeitado – era um gigante feio.

Revoltado com o próprio reflexo, ele quebrou o espelho que mais cedo havia construído, e passou a odiá-los por refletirem seu rosto feio.

E teve então uma ideia – pensou que eram os espelhos que diziam para as pessoas quem era feio e quem era bonito; talvez, se quebrasse todos os espelhos da vila, as pessoas deixariam de se preocupar com as aparências, e o aceitariam como um deles.

E foi naquela noite que ele invadiu a vila, entrou de casa em casa e quebrou cada espelho que encontrou pela frente. Grande e desajeitado, sua cabeça tocava o teto das casinhas e seus braços e pernas compridos acabavam quebrando mais do que só espelhos. Por sorte, não feriu nenhum dos aldeões, que se juntaram para expulsar o gigante da vila. Ele tentou explicar que sua intenção era destruir aquilo que não os deixava ser amigos, mas vendo que só conseguira ser ainda mais odiado, foi embora dali, completamente entristecido.

Caminhou durante toda a noite, sem se preocupar com que direção seguia. Quando começou a amanhecer, ele estava cansado e com muito sono, e por sorte, encontrou mais a frente uma enorme fazenda, onde talvez pudesse descansar.

Só que a fazenda era, na verdade, um CRG – Centro de Reabilitação de Gigantes.

Ao entrar, ele se deparou com muitos gigantes que conhecia, e até alguns parentes. E todos, assim como ele, haviam partido por se sentirem excluídos. E todos, assim como ele, eram grandes e feios.


Mas, curiosamente, naquele lugar eles não se sentiam mais assim. Apesar de não terem mudado nem um pouco desde a último vez que o gigante os viu, todos ali diziam-se mais bonitos do que eram antes, e mais felizes também.

O gigante foi procurar o dono do lugar, pois achava aquilo tudo muito estranho. Talvez o dono fosse um bruxo ou algo assim, e tivesse enfeitiçado à todos.

Para sua surpresa, não era um bruxo. Era um senhor idoso, bem pequeno e de expressão muito bondosa. E, como o gigante pôde constatar depois, também era cego.

Perguntou ao homem como os outros gigantes podiam se achar mais belos se continuavam como sempre foram. E o velho homem respondeu:

- É porque agora, não ligam para sua aparência externa. O que lhes importa é o que está dentro, sua beleza interior. E foi isso que vieram aprender aqui – à enxergar essa beleza.

- E como pode ensiná-los a enxergar, se o senhor mesmo não é capaz de fazê-lo? – o gigante perguntou, e logo se arrependeu, temendo tê-lo ofendido.

O velho sorriu, e respondeu:

- Posso não ver o mesmo que seus olhos lhe mostram, meu caro. Mas garanto que sou capaz de enxergar mais do que você pode ver. Posso, por exemplo, enxergar o quanto seu coração é bondoso, e quanto está tomado de tristeza e arrependimento.

O gigante encantou-se pelas palavras daquele velho homenzinho, e por sua enorme sabedoria, mas ainda tinha outras perguntas.

- Mas por que eles continuam aqui? Por que não voltam para suas casas?

- Porque temem os olhos do mundo lá fora. Se escondem aqui, pois apesar de serem capazes de reconhecer a beleza em si, temem o que as outras pessoas possam lhes fazer por não reconhecerem o mesmo.

O gigante se sentiu fraco ao pensar que queria ficar ali também. Mas sabia que nem ali seria capaz de esconder a sua feiúra, pois não era a de seu rosto que lhe atormentava mais – era a de seu coração. O que ele fizera na noite anterior fora uma coisa muito horrível, e ele precisava se desculpar.

Despediu-se do velho homenzinho e de seus amigos gigantes, e tomou caminho de volta para casa. Tinha esperança de que um dia, todos ali fariam o mesmo.

Depois de uma longa caminhada, pôde avistar ao longe a aldeia onde causara tantos estragos. Mas antes de se aproximar, tinha algumas coisas a fazer.

Passou o dia inteiro trabalhando duro em sua oficina, sem parar para descansar.

Na manhã do dia seguinte, ele se dirigiu à aldeia puxando um enorme carrinho carregado de coisas – panelas, mesas, cadeiras, camas, espelhos – muitos espelhos. Quando os aldeões viram-no se aproximando, ficaram alarmados, mas antes que pudessem expressar qualquer outro tipo de reação, o gigante começou a distribuir e objetos e pedidos de desculpa para todos os presentes. Comovidos com sua atitude, os aldeões aceitaram os objetos e lhe agradeceram muito, elogiando seu enorme talento em construir tais artefatos.

Convidaram-no para um grande jantar naquela noite, para agradecê-lo e pedir desculpas por todas as vezes em que lhe expulsaram da aldeia, mas o gigante já tinha preparado um jantar para todos em sua casa, e ninguém da aldeia recusou o convite.

Desde então, o gigante continuou morando em sua casa, mas sempre que podia, passava na aldeia para trabalhar junto com os outros aldeões e ajudar quem precisasse, e todos o tratavam muito bem.

E assim, viveu feliz para sempre.

domingo, 21 de agosto de 2011

Estrelas cadentes



Olhava as estrelas no céu, com enorme fascínio. Perdia-se no infinito estrelado do céu da noite. Era capaz de ficar horas apenas fitando-as, sem se preocupar com mais nada.




Um dia, lhe contaram sobre as estrelas cadentes. A menina, que queria saber tudo sobre as estrelas, decidiu que veria, dentre tantas estrelas no céu, ao menos uma cair.

E todas as noites, postava-se diante da janela do quarto mais alto da casa e ficava a olhar para o alto. Passado algumas horas, cansou-se, e puxou um banquinho para si. Não durou muito e uma amiga sentou-se em um banquinho ao seu lado. A menina não lhe deu muita atenção, nem mesmo lembrava de seu nome, só que começava com a letra 'E'.

Nas primeiras noites, não tivera sorte. Nem uma única estrelinha oscilou em sua posição lá no alto. Em algumas noites, a menina tinha de pedir as nuvens que se retirassem, pois lhe impediam a visão. Estas iam-se embora aborrecidas, e por vezes lhe jogavam gotas de chuva.

Por ter de ficar acordada a noite inteira, a menina dormia durante o dia, e já não descia do quarto mais alto da casa - trancava-se nele o dia inteiro, e não deixava que ninguém mais entrasse. Só aquela sua amiga cujo nome começava com a letra 'E' lhe fazia companhia.

Em uma noite, fria por sinal, a casa recebera a visita do espírito do Natal, convidando-a à comemorar e festejar. Mas a menina não desceu.

-Venha, é Natal! Estão todos comemorando! Tenho certeza de que aqui está mais quente do que aí em cima!

-Não posso descer, estou esperando minha estrela cadente. - a menina respondeu.

E então o espírito se foi, deixando-a com sua única amiga.

Vieram, em intervalos de tempo, outros espíritos festivos, mas passaram todos, recebendo a mesma resposta:

- Estou esperando minha estrela cadente.

Até que um dia, passou o Tempo, ligeiro, levando tudo e transformando o que ficou para trás. Este não a convidara para nada - veio enquanto ela dormia, e simplesmente passou.

Quando a menina despertou naquele dia, já não era capaz de se reconhecer no espelho - o rosto enrugado, os cabelos grisalhos, a pele esticada nas mãos... já não era menina, e sim uma senhora.

Estranhamente, sua amiga, ao contrário dela, não envelhecera - continuava do mesmo jeito que quando sentou-se com ela pela primeira noite diante da janela, fitando o céu. Só parecia cansada, e lhe encarava sem demonstrar qualquer emoção.

Como isso havia acontecido, ela se perguntava. O Tempo passou tão ligeiro que ela envelhecera, e ainda não tinha visto sua estrela cadente. Agora, via-se diante de um enorme dilema - se continuasse a esperar, um dia ainda veria sua estrela? E se tentasse retomar o tempo que passara, valeria a pena?

Desesperada, chamou por seus pais e irmãos. Tentou abrir a porta do quarto, mas estava emperrada, e suas mãos velhas já não tinham tanta força. Continuou chamando, mas não obteve resposta. Não havia barulho na casa tampouco, o que a fez concluir que estava vazia, e ele estava sozinha com sua única amiga, da qual agora lembrava o nome: Esperança.

Esta, pronunciando-se pela primeira vez diante do desespero da menina, lhe falou que naquele quarto, havia um baú com objetos mágicos que poderiam ajudá-la.

Mesmo sem saber qual a real função de cada objeto ou o que faria com eles, ela começou a procurar.

Encontrou um baú, e nele dois objetos, à princípio, comuns.

- Esse, é capaz de realizar qualquer desejo seu - disse-lhe a Esperança, pegando nas mãos um tubo daqueles com o qual fazemos bolhas de sabão. - E esse - continuou, pegando agora uma pequena ampulheta - é capaz de te fazer voltar no tempo.

A menina voltou a ter a mesma determinação de antes, e pegou o tubinho de bolhas de sabão. Com o Tempo ela se resolveria depois, agora o que mais importava era sua estrela.

Soprou bolhas e mais bolhas, e estas foram subindo e aproximando-se umas das outras, e juntas, formaram uma figura de início disforme, mas que logo deu formas à um homenzinho cinzento, que mais parecia fumaça - como o gênio da lâmpada de Alladin.

O gênio perguntou qual era o desejo daquela senhora, fazendo com que a menina lembrasse de sua atual aparência, e repensasse se não seria mais prudente ser acertar com Tempo primeiro. Mas logo demoveu-se da ideia e estava determinada outra vez.

- Eu quero ver uma estrela cadente.

O gênio riu da menina - ou melhor, da senhora.

- Como pode nunca ter visto uma?

Ela explicou-lhe que ficara todo aquele tempo ali, sentada, esperando, mas que nunca vira nenhuma cair diante de seus olhos.

- As estrelas são tímidas, minha cara. Gostam de surpreender - o Gênio disse, e depois continuou - Não posso pedir a uma estrela que caia, pois não tenho poder sob as coisas do Universo, e porque é algo natural demais. Mas posso lhe conceder asas, para que encontres sua estrela mais facilmente. Quem sabe se te esconderes no topo de uma nuvem...

A menina não cogitava essa ideia - as nuvens lhe tinham certa antipatia. Mas aceitou as asas, e com elas, subiu bem alto no céu.

Pensou em levar a Esperança consigo, mas decidiu deixá-la ali mesmo.

- Vou ficar lhe esperando - foram suas últimas palavras antes que a velha menina partisse.

Lá no alto, no entanto, sentiu falta da amiga. Não teve paciência de ficar esperando também, afinal, já esperara por tempo demais.

Decidiu subir ainda mais alto, e foi perguntando de estrela em estrela, se alguma delas havia caído recentemente.

Primeiro, lhe explicaram que estrelas cadentes na verdade não eram estrelas de verdade, e sim, pedras gigantes que brilhavam intensamente quando se aproximavam da Terra. E então, começaram a enumerar, e se perdiam na conta de quantas estrelas cadentes haviam cruzado o céu.

- Mas como podem ter caído tantas, e eu não ter visto nenhuma?

- Em que direção olhava? - perguntou uma estrela, no que a menina respondeu: Norte.

- Aí está! Não houveram muitas estrelas cadentes nessa direção por um bom tempo... se tivesse olhado à Sul, teria visto uma chuva delas...

A velha menina, entristecida, deixou-se cair aos pouquinhos. Seus braços já não eram mais tão fortes quanto antigamente, pois já não eram mais uma menina. E continuou caindo, agora aumentando a velocidade... quem sabe, se fosse mais rápida, não lhe tomariam lá embaixo por estrela cadente...

Foi então que viu uma bolha de sabão flutuando ali perto, e juntando a pouca força que ainda tinha, seguiu-a, esperando encontrar mais. Todavia, já estava cansada de esperar pelas coisas, e decidiu agir.

Viu que a bolha ia em direção ao mar - lá embaixo, podia discernir o litoral, o que significava que estava muito longe de casa. Pôde ver ainda uma casinha um tanto afastada, e aproximando-se dela, viu uma caixa de sabão esquecida na varanda. Pegou-a, e a levou em direção ao mar.

O vento estava forte, e ela mal conseguia se manter no alto. Sem demora, jogou todo o sabão da caixa no mar, e o vento ficou feliz em ajudá-la, como se quisesse se desculpar por estar tão violento aquela noite, soprando forte a água salgada e fazendo subir milhares e milhares de bolhas. Tantas, que quando se juntaram para formar aquela figura conhecida, ele era assustador de tão enorme que ficara.

- Você mais uma vez, minha velha? - disse o gênio, e sua voz ressoou como um trovão, o que também o surpreendeu. Ele parecia envaidecido com seu tamanho. As nuvens aglomeravam-se no céu, curiosas quanto ao destino da menina que tanto lhes ofendera.

- Tenho mais um pedido - ela disse, e sem rodeios continuou -, quero voltar para casa, quando ainda era menina e nada sabia sobre estrelas cadentes. Quero voltar no tempo e abraçar meus pais e irmãos mais uma vez. E quero que isso tudo não passe de uma lembrança, ou um sonho... eu só quero ir pra casa... - concluiu, e começou a chorar. As nuvens, comovidas, choravam também.

O gênio, comovido com as lágrimas da menina, e receoso de que as lágrimas das nuvens pudessem desmanchar sua enorme figura, concedeu-lhe logo o pedido, sem nem mesmo dirigir-lhe palavra. Teve tanta pressa, que não transformou aquela triste aventura em apenas lembrança ou sonho. Tirou-a por completo da cabeça da menina, que agora era menina outra vez...



***


Acordou cedo naquele dia, como se tivesse dormido por tempo demais. Deu um beijo de bom dia em seus pais, e a implicância começou cedo com os irmãos. Tomaram o café da manhã e logo já estavam brincando no jardim. Dali a menina viu que a janela do sotão, o quarto mais alto da casa, estava aberta, o que era incomum já que nunca ninguém entrava lá.

Ao crepúsculo, a família sentou-se à varanda e ficou vendo o sol se pôr. Falavam sobre muitas coisas, e falaram sobre estrelas cadentes.

- Nós podíamos ficar lá no sotão esperando elas caírem, seria algo incrível! - exultou o irmão mais novo.

- Ficaríamos tanto tempo esperando que acabaríamos envelhecendo sem nem mesmo nos darmos conta - comentou o pai. Ninguém mais voltou àquela assunto no decorrer da noite.

Quando já era hora de dormir, todos trocaram beijo de boa noite. Era uma noite quente, e a menina pediu que a janela de seu quarto ficasse aberta.

Distraída, olhava o horizonte enquanto o sono não vinha, encantando-se pela beleza do céu estrelado... Uma nuvem passou ligeira, como se não quisesse ser notada ou estragar a bela visão. Dava a impressão de ter uma cara enfezada, como se algo ali a desagradasse ou ofendesse. E logo se foi.

Foi então, que repentinamente, um rastro de luz cruzou o céu, tão rápido e tão brilhante, que em questão de segundos já havia sumido.

Surpresa, a menina lembrou-se do que o pai lhe disse, que envelheceriam de tanto esperar ver uma estrela cadente. E então, em uma noite qualquer e sem aviso, uma lhe surge bem em frente a sua janela...

"As estrelas são tímidas... mas gostam de surpreender..."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

International Friendship Day

Sabia que foi um argentino que 'criou' o Dia do Amigo?


Pra um brasileiro, tá aí um big dilema. Comemorar ou não comemorar? Afinal, existe aquela velha rixa BrasilxArgentina que transcende séculos e séculos de plena animosidade - em suma no meio esportivo.

Se você é capaz de aceitar isso numa boa, o velho Enrique Ernesto Febbraro - difusor do Dia do Amigo - fica muito agradecido, pois aí está uma manifestação legítima de um dos pilares que sustentam o real sentido da amizade - a confraternização pacífica.

Passado esse momento lindo, vamos as origens do dia 20 de Julho.

20 de Julho de 1969, um grande marco para a história da América e do mundo. Estão lembrados desse dia? (tudo bem, grande parte dos meus leitores não tinha nem nascido, mas livros de História estão aí pra isso...) Não? E se eu citar o nome mais importante da data: Neil Armstrong. E que ele tinha uma nave espacial (que na verdade era da Nasa), e que tirou uma foto do seu amigo com a bandeira dos Estados Unidos sabem onde? Na LUA.

Pois sim. Comovido pela chegada do homem a lua, Enrique Febbraro foi tomado por uma imensa vontade de confraternizar, afinal, segundo ele mesmo se empenhou em propagar, a chegada do homem à lua é "um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis."

Pois então qual era a impossibilidade de se enviar cerca de quatro mil cartas para diferentes países e em diferentes idiomas como o intuito exato de estabelecer mundialmente o Dia do Amigo?

Nenhuma.

Mas... quatro mil cartas? Será?

Uma outra versão afirma que só rolou uma festa dedicada a amizade. Seja como for, foi de uma ideia linda e bem intencionada da caixola de velho señor Febbraro que surgiu essa data tão especial.
Vale ressaltar que em 1969, o mundo ainda se encontrava a mercê da Guerra Fria (1945 - 1991), ou seja, vários países travavam conflitos econômicos, territoriais e políticos enquanto rolava solta a corrida armamentista.

Aos poucos, a data começou a ser adotada em vários países. Hoje, quase todo o mundo ressalta o valor da amizade no dia 20 de Julho.

É claro que essa é apenas uma teoria - a mais difundida até então - e exclusiva à data comemorativa.

E qual seria então a origem da amizade?

Historicamente, quem sabe? Pode ter começado quando dois primatas se encontraram na floresta, dividiram um couro de dinossauro rex e a carne de um pterossauro muito apetitoso, deram as mãos e saíram pulando em direção ao riacho pra dar um mergulho - e assim ficaram amigos.

Enfim, a amizade é uma coisa linda, e nada mais digno do que ter um dia só para apreciá-la e lhe dar o devido valor.

Mas a verdade é que dia do amigo é todo dia, e todo mundo sabe. E todo dia é digno de se dar valor; todo dia é digno de se apreciar os princípios e valores básicos da vida, e a amizade é um deles.

Portanto, hoje é o dia em que você pode dizer #felizdiadoamigo. Mas nos próximos dias, tanto quanto foi nos dias antecedentes, o que mais conta é ser amigo, e reconhecer a beleza do ato todos os dias, inúmeras vezes ao dia, porque ser amigo nunca cansa.

Como disse Fernando Pessoa, "É bonito ser amigo."





Amizade

Segundo Cícero, com excessão da sabedoria, a amizade foi a melhor coisa que os deuses já ofereceram a humanidade.


Segundo o Dicionário Aurélio, amizade é um sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou por atração sexual.


Mário Quintana afirma que a amizade é um amor que nunca morre.


Afinal de contas, o que significa a amizade? Como definir algo tão indefinível quanto definível de diversas formas? Algo que nos proporciona os sentimentos mais indizíveis, os momentos mais marcantes e as lembranças mais sublimes?


Amizade é sinônimo de reciprocidade. É uma relação de troca, de ganho mútuo, mas sem cobranças ou mesuras. Dá-se sem a preocupação de receber algo em troca, aceitando um simples e sincero sorriso como a maior recompensa.


Tanto pode ser – e é – o mesmo que ternura, palavras doces e gestos de afeto.


É confiança. É admitir seus erros frente àqueles que foram atingidos e ter suas conquistas reconhecidas por essas mesmas pessoas. E é perdão.


É gratidão e é gratificante. É intimidade e é intimidante.


É a capacidade de ficar em silêncio, mas sem nunca esgotar o que se tem a dizer.


É o maior amor, sem limites ou restrições. São os momentos e as recordações. São as pessoas e suas mais belas definições – amigo, amiga, amigos.


É mais do que os clichês que compõem esse texto tão escasso. A verdade é que sou incapaz de definir o que a amizade de fato é, e o que representa para mim.


Portanto, singela e sinceramente, agradeço à todos os meus amigos pela honra de tê-los ao meu lado e partilhar desse amor que nunca morre, da maior dádiva cedida à humanidade, desse sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura, da mais bela coisa sem definições equivalentes ao seu real significado.


Obrigada pela amizade, todos vocês são especiais para mim.



* Especialmente – como não poderia deixar de ser – à Jéssica, Lívia, Luana, Sabrina, Amanda, Cynhtia, Bia, Carol e Priscila, minhas amigas mais que especiais.



terça-feira, 31 de maio de 2011

Sorrisos

Vem a mim com um sorriso doce

Estendo a mão para afagar-lhe o rosto

Sorri pra mim como se ainda mais feliz fosse

Só por saber o quanto lhe gosto


Vem a mim com um sorriso terno

Daquele que vejo e escuto “eu te amo”

E meu sorriso em retorno é como um agradecimento eterno

Por tê-la tão perto desse coração insano


Vem a mim com um sorriso desconcertado

De quem sabe que fez bananice

Sorri ao sorriso que fala: “ta perdoado”,

E aquiesce ao sorriso que diz: “eu te disse...”


Vem a mim com um sorriso dengoso

De quem precisa de um abraço, um carinho, atenção

Estendo meus braços, e meu sorriso teimoso

Teima em mostrar-se, mostrando satisfação


Vem a mim com um sorriso afetado

E estende-me os braços, me acolhendo em seu colo

E minha inquietude cessa quase que de imediato

E disfarçadamente ou não, eu choro


Vem a mim com um sorriso bobo

Fazendo birra, implicantemente insistente

Ou só está contente, por qualquer motivo tolo

Ou é só consolo, de um jeitinho diferente


Vem a mim com um sorriso irônico

Ironia de leve que passa, às vezes, despercebida

Que numa conversa, gera sorrisos incertos quanto ao cômico

Por não perceberem a ironia contida


Vem a mim com lágrimas nos olhos

Mas o sorriso persiste no rosto

É que as lágrimas, por vezes sinônimo de tristeza,

Ás vezes dizem, contraditoriamente, o oposto...


Vem a mim como um infinito de águas

Para banhar-me e me oferecer abrigo

Vou a ti com meu rio de lágrimas

Para sorrir frente aos seus mil sorrisos...


Nas entrelinhas - Um pouco mais sobre "Sorrisos"

Oi! Quem aí sentiu saudades?


Sei que já faz um tempinho que não posto no blog – faz ainda mais tempo que não posto poemas neste blog. O Motivo? Falta de inspiração, insatisfação com o que era produzido, falta de tempo para dedicar-me exclusivamente a esse trabalho... enfim, pequenos fatores que resultaram nessa minha ausência.


Sem muita delonga, estou aqui para me desculpar pela demora e fazer uma breve introdução ao meu novo poema que logo, logo posto aqui pra vocês.


Ao lerem, vocês provavelmente se perguntarão: “Mas quem é ‘ela’ cujo eu-lírico do poema se dirige assim tão carinhosamente?” Bem, não se trata de uma pessoa, mas se manifesta por meio de pessoas, e se manifesta ainda mais lindamente por meio de pessoas ainda mais lindas, assim como minhas queridas amigas, a quem dedico esse poema, e toda a poesia contida nele.


Já sabem ‘quem’ é ela? Se não, eu digo: é a amizade, gente. Quem mais seria?


O poema fala das várias faces da amizade por meio de sorrisos. É que sorrisos, quando lindos e puros, são as coisas mais lindas e puras desse mundo. E retratam bem a amizade e os momentos em que ela está presente – no meu caso, todos.


É obvio que faltaram ainda outros vários sorrisos neste poema. Mas, sinceramente, não é necessário transcrevê-los para saber de sua existência ou mesmo apreciá-los. Não sinto falta deles aqui, porque os tenho todos os dias na face daqueles que amo.


Ah! Outras coisas – notem que eu finalizo a penúltima estrofe usando reticências (...). Isso porque, nessa estrofe, eu falo sobre lágrimas, que assim como com os sorrisos, também têm muito a dizer. Portanto, optei pelas reticências para passar a ideia de continuidade, de que ainda há muito mais a se falar sobre aquela palavrinha em especial.


Podem notar também que a maioria de meus poemas termina sem um ponto final, mas com os mesmos três pontinhos... O motivo é o mesmo – o desejo de passar a ideia de continuidade, deixando em aberto para aspirações, porque a poesia, entre tantas outras coisas, trata-se de um cadinho de inspiração que proporciona aspirações...


As quarta e quinta estrofes passam a ideia de reciprocidade, uma vez que, na quarta estrofe, eu afirmo que estendo meus braços, ofereço conforto e fico feliz por isso – afinal, como sempre digo, nada me faz mais feliz do que fazer alguém feliz –; já na quinta, sou eu quem precisa desse mesmo conforto, e é para mim que estendem os braços; que a amizade estende os braços. A última estrofe ainda reforça essa ideia de reciprocidade – notem que o primeiro verso eu começo como todos os outros – ‘vem a mim’ –, enquanto que o terceiro, eu inverto – uso ‘vou a ti’. Tudo isso para dizer que uma das coisas mais importantes na amizade, é essa relação recíproca. Simples assim.


Além disso, preciso explicar-lhes ainda um conceito na última estrofe: quando falo que a amizade vem como um infinito de águas para banhar-me, quero dizer que a amizade purifica. Entenderam? Então, é isso.


Enfim, a amizade é linda...


Espero que gostem do poema, que segue logo acima e se chama... “Sorrisos”... (meio óbvio isso, não?)


Boa leitura!


Michelle Bezerra



segunda-feira, 30 de maio de 2011

Súplica ao Tempo

Concede-me essa dança, uma última vez
Tenta ver a intensidade com que lhe peço
É que não sei se estou pronta para me despedir
Mas não se preocupe - quado estiver, me despeço

Não é que eu esteja querendo prolongar
É só que não sei o sentido do fim
Se soubesse, talvez fosse mais fácil aceitar
Se souberes, então digas para mim

É que nunca parece o bastante
Mas o é, justamente por não parecer
Mas se de fato o fosse, então porque persiste o vazio sufocante?
Talvez por querermos sempre mais do que podemos ter...



Notas finais sobre o poema:

Esse poema só foi postado por intermédio de uma alma bondosa que intercedeu por esses versos mal amados... (é que eu mesma não me agradei muito desse versar, motivos pessoais. Mas me disseram que valia a pena postar, e eu confiei).

Enfim, agradecimentos à Maria Bia, que resgatou esses versos do purgatório e fez com que lhes fosse concedido um cantinho 'num lugar entre rosas e anjos'...

PS: E a manola Sabrina também, que disse que ia me bater por eu ter dito que não gostei do poema... enfim, confio demais nessas duas amigas para duvidar de suas palavras, portanto, se dizem que é bom, eu acredito e pronto. Aqui está o poema, e meu agradecimento especial à essas duas lindas com quem posso contar sempre e que amo muito.


Michelle Bezerra


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Reflexões-relâmpago:

O Tempo passa. Isso não muda. O resto sim.

***

Antes, eu não olhava tanto para o céu. Hoje olho e me encanto. Não é que o céu esteja diferente. É que meus olhos deixaram de ser ingratos.

E se o agora fosse eterno

Nunca antes havia entendido quando lia ou ouvia alguém dizer que queria que o tempo parasse. A ideia, à mim, era absurda. Por que insistir em querer algo que se sabe ser impossível?


E agora, esse é o meu maior desejo.


Porque o tempo me assusta. O depois me assusta. E não quero que o agora se vá.


E hoje entendo. Querer o impossível, não é absurdo. É desespero.


Mas hoje, agora, não estou desesperada. O desejo não passa de uma inquietação momentânea que vem e vai. Às vezes eu desejo com todas as minhas forças, frustrada por não ser forte o bastante. Mas, na maior parte do tempo, eu compreendo, e aquiesço.


Tudo o que é bom, não dura pouco. Dura o tempo suficiente para se tornar eterno.


E, se o agora fosse eterno, então o que seria o tempo?


O agora só é eterno quando é lembrança, e o tempo, continuaria a ser o tempo. E as lembranças ficam. E o tempo passa.


O que realmente me assusta, são as mudanças. E elas vêm com o tempo.

sábado, 30 de abril de 2011

'Fugindo ao padrão' - agradecimentos especiais!

Respondendo aos comentários feitos ao conto “Lua dos Loucos”:


Não tenho o costume de fazer isso - responder comentários aqui pelo blog -, mas hoje abro excessão para minhas gêmulas tagarelas... (hihi!), Maria Sabrina e Maria Bia.


Daí, pensei em responder ali, pelo espaço para comentários mesmo. Fiquei meio sem saber o que escrever, e resolvi digitar pelo processador de texto – quando estivesse pronto, era copiar e colar e postar. Simples.


Mas quem disse que foi simples? Super quebrei cabeça pra conseguir responder aos comentários à altura, e, quando finalmente consegui, dei uma olhada no resultado – ficou enorme!


Então, já que estava saindo dos padrões, que fosse em grande estilo. Mas como? Simples outra vez: elevá-lo ao nível de uma postagem!


Então vamos lá!


Maria Sabrina...


Sua opinião é muito importante para mim, ainda mais quando são palavras assim tão doces...! Significa muito para mim você ter gostado do meu conto, mesmo mesmo – é muito gratificante ver que as pessoas que amo admiram o que escrevo. Obrigada, por tudo! Não sabe a felicidade que sinto por poder chamar-te de amiga...!


E adoro quando diz que algo que escrevi fez com que se sentisse melhor, ou se identificasse, coisa assim – me sinto importante...! (rs) É um prazer servi-la!



Maria Bia...


Foi difícil, foi? Mas parece que foi tão fácil... (rs)


Obrigada por comentar, significa muito pra mim, e o que disse pra Sabrina vale pra ti também – é muito gratificante ter esse apoio das pessoas que amo. Agradeço também pelos elogios (fiquei até um pouco sem graça...) e congratulações.


E acredito sim, Maria Bia, que encontrou mais de mim nesse post, pois esse é, de fato, o conto mais pessoal até agora, simplesmente por explorar minha própria mente ao desenvolvê-lo, minha própria Lua... Ao menos, foi o que tentei fazer.


O quê? Quer mais? Mais de mim?? Ok, então. Vou cedendo aos pouquinhos, com cuidado pra não ‘sufocar’ ninguém... (rs). E não concordo quando diz que mal me conhece – às vezes, penso até que me conhece melhor do que eu mesma... Ou talvez, eu esteja confundindo as coisas... Acho que você me ‘lê’ bem – me compreende, sabe? Como quando descobre coisas como o pretexto por baixo do chapéu que uso na cabeça... -, e à cada leitura, vai conhecendo um pouco mais desse turbilhão que sou... Ah, agora entendi... acho...!


E, cá entre nós: ‘seu’ favorito será ‘nosso’ favorito-compartilhado ainda por um bom tempo...!



Nesse conto, mais que em qualquer outro, eu precisava dessa ‘aprovação’ de pessoas como minhas gêmulas queridas, porque esse me deixou muito insegura, de verdade. Foi o que tomou mais de mim, em vários sentidos. Estou muito contente que tenham gostado!


Muito obrigada por me darem a certeza de que sempre poderei contar com vocês ao meu lado!


PS: Gostaria de dedicar esse conto à minha amiga Lívia. O motivo? Simples. É esse aqui, ó:

Certo dia, quando mostrei para ela o conto “Coração de Margarina”, ele me fez um comentário que me deixou... ‘encucada’: “Micheulle, (é, ta certo, é Micheulle, jeito carinhoso e tals...), seus contos sempre começam assim, com ‘Era um belo dia de sol’, ou ‘Era uma tarde chuvosa’...”; ou seja: meus contos começavam falando sobre o ambiente da estória, o clima. Fui constatar. Para minha surpresa, era verdade!


Portanto, dedico à ela o primeiro conto que não se inicia fazendo referência climática!


Beijos!

Joana Dalva. Ou Michelle – fica à critério de quem ler. =]


*E obrigada também ao Potter, que acabei de ver que comentou também!

terça-feira, 26 de abril de 2011

Lua dos Loucos

Fui até a Lua ontem, antes de dormir – na verdade, fui na hora em que deveria estar dormindo, pois antes que o sono chegasse, a insônia veio dizer um ‘oi’. Eu lhe ofereci um copo de leite. Ela me ofereceu um de inquietação. Brindamos e fomos juntas à Lua.


Estava um caos. Uma desordem colossal. Parecia com uma Lua de um louco. Caixas mal empilhadas em todos os cantos, entre tantas outras coisas que se amontoavam por todos os lados de forma aleatória, sem possibilidade de, a princípio, distingui-los por tipo, data, teor ou qualquer outro critério de distinção. Era como se um furacão tivesse passado por ali. De fato, um dia antes, um furacão tentara entrar em meus domínios lunares, sem passaporte, sem visto e muito menos convite. Não permiti que entrasse, mas isso não o deteve – deu a volta e encontrou uma brecha em minhas fronteiras de vulnerabilidade. Só me restaram o assombro quanto ao seu poder destrutivo, a necessidade de reforçar minhas fronteiras, a bagunça para arrumar e a triste certeza de que ele voltaria uma hora ou outra, só pra não sair do padrão.


Ociosamente, comecei a colocar as coisas em ordem. Sabia que era em vão, que se conseguisse algum sucesso, seria apenas momentâneo. Sabia que era necessário, que seria pior se eu deixasse que uma desordem sobrepujasse a outra. Entendia tudo isso, e mesmo assim, aceitava com dificuldade a minha triste tarefa, resignada e frustrada.


Peguei um fiozinho de lã solta entre o emaranhado de linhas embaraçadas - meu ponto de partida - e comecei a enrolá-lo nos dedos, com cautela, para não bagunçar ainda mais. Mas foi inevitável – logo puxava mais de um fio, e um puxava um outro, e meus dedos eram poucos para tanta linha.


Por fim, deixei as linhas num canto - mesmo sabendo que elas me seguiriam onde quer que eu fosse até ficarem embaraçadas outra vez - da forma mais organizada que consegui, o que não era lá grande coisa, e me dirigi às caixas e às folhas de papel que saiam de dentro delas. O conteúdo da primeira caixa que peguei datava de tempos antigos – lembranças remotas. Percebi a ausência de algumas folhas. Fui procurá-las em outras caixas, que também estavam incompletas e que me levavam à outras caixas, que me levavam à outras... Me vi então perdida no tempo, e já não sabia o que procurava. A coisa chata em se perder no tempo, é que, muitas vezes, você se prende a comparações, descobre rancores, arrependimentos... Mas havia a parte legal também. Devia estar ali, em alguma caixa...


Deixei as caixas e as folhas de lado. Dei o melhor de mim para elas e teria de me contentar com o resultado não agradável, mas satisfatório.


Era a vez de colocar os frascos nas prateleiras. Essa era a pior parte da faxina, a mais confusa.


Comecei a juntá-los um por um, sem saber qual era qual. Sempre que um furacão passava, os rótulos se desprendiam dos frascos, e iniciava-se outra vez o processo de identificação e rotulação.


As etiquetas reservas já estavam prontas para cumprir seu encargo, e todos os frascos já estavam recolhidos. Era hora de recolocá-los em seus devidos lugares.


Peguei o primeiro frasco, abri a primeira tampa, sacudi o líquido incolor e levei a borda do recipiente até bem próximo do meu nariz. Exalei um odor suave, reconfortante, doce e delicado, e desfrutei daquele sentimento por um breve momento. Tampei o frasco e o recoloquei na estante, com a etiqueta ‘amor’. O Seguinte, não tinha cheiro, então levei-o a boca e encostei o líquido na língua, sem engolir. Tinha um gosto forte, amargo, peculiarmente agradável, mas logo repulsivo – levou a etiqueta ‘egoísmo’.


Seguiu-se felicidade, ódio, melancolia, nostalgia, angústia... Fui experimentando um por um, até que todos estivessem em seu devido lugar.


Terminei e me sentia exausta, tão exausta quanto alguém que experimentasse um turbilhão de emoções e sensações, se perdesse em suas próprias lembranças, seu presente e seus anseios e se emaranhasse em vários novelos de fios de pensamentos numa única visita à solo lunar poderia estar.


Durante todo esse tempo, a insônia permanecera ali, me observando, enquanto bebericava seu copo de leite. Ela apontou meu copo ao seu lado – estava na metade -, e me perguntou o que eu achava. Disse à ela que já havia bebido o bastante por uma noite. Ela então se foi, levando minha dose não acabada e deixando a promessa de dose extra para a próxima visita. Não consegui evitar de sorrir diante da promessa – o último frasco que etiquetei fora ‘otimismo’, logo depois de ‘euforia’; ainda estava sobre o efeito dos mesmos, e portanto, estava incoerente.


Olhei ao redor, e só o que pude dizer foi “bem, está melhor do que estava antes”. Já começava até a me sentir mais leve, e minha Lua parecia mais sã. No fim das contas, até que fora fácil colocar tudo em ordem.


Me despedi da minha Lua. Era hora de voltar ao mundo real, à realidade tangível. Mas antes... Quem sabe ainda não dava tempo de visitar um mundo mais próximo de onde me encontrava – o mundo dos sonhos.


Me dirigi à ele lentamente, tomada de cansaço e imaginando que aventura me aguardava para aquele fim de noite. Fechei os olhos e fui abrindo-os lentamente, e, para minha surpresa, abri-os em meu quarto escuro, totalmente desperta; uma luz pálida adentrava pela fresta da janela e a chuva caía forte do lado de fora. Levei alguns minutos para absorver aquilo.


Ah! Claro! Fora tudo um sonho! Eu mal entendia a minha surpresa, pois era tudo muito lógico – só em sonho uma faxina lunar seria assim tão fácil e tão bem sucedida. Caixas e frascos e novelos de fios de lã... Não era assim que funciona e eu já devia saber. Afinal, fora tudo apenas um sonho.


Tomei um gole mental daquele frasco de otimismo e tentei sorrir. Não deu muito certo. Haveria tempo para novas tentativas no decorrer do dia, não havia pressa. Era hora de voltar à realidade, ao mundo real, realidade tangível.


Queria lembrar em que parte da noite minhas costumeiras e inquietas reflexões passaram de conscientes para inconscientes. Não posso dizer que a insônia ficou me devendo visita, pois até quando eu durmo, ela está presente, pregando-me peças. E essa fora de longe sua peça mais ousada.


Minha Lua continuaria em desordem por um tempo ainda, até que eu tivesse tempo para ela, para focar-me só nela, cara a cara, só eu e minha Lua, numa conversa pacífica, ausentes de tudo e de todos, em mais uma noite insone, ou mesmo em meus sonhos. Sem caixas com folhas, sem fios de lã, sem frascos e etiquetas... Pois tudo ao que correspondiam, não se encontrava assim na Lua dos loucos. Estavam ali, é claro, só que de forma abstrata, mais difíceis de separar e identificar; não como se tivessem sido vítimas do furacão, mas como se fossem a sua origem.


Me lembrei de um momento em meu sonho, em que pensei que tinha concluído a ‘faxina’- disse que minha Lua parecia mais sã. Ali eu já devia ter notado, sem a menor sombra dúvida, que estava fora da realidade, pois minha Lua, ainda que menos confusa e menos desorganizada, jamais pareceria sã – seria sempre assim, como a Lua dos loucos...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tire um tempo para refletir e absorver o que é sério e importante, e só então volte para encarar as banalidades... Volte para o mundo...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Momento nostalgia... só um pouquinho...

Agradecimento feitos, é hora de um pouquinho de nostalgia – que combina muito com a tarde chuvosa de hoje.


Numa tarde de quinta, entre cinco e seis horas, eu estava no curso de Informática, usando o computador do laboratório para criar meu blog – que era a atividade do dia; era aula extra, e todos, depois da aula explicativa, deveriam criar um blog, partindo do pressuposto de que “todo mundo tem algo para mostrar ao mundo”. Essa foi a frase inspiradora do professor, e tenho que admitir, fiquei tomada de ansiedade e euforia. Gritava lá no fundinho de minha mente: “Sim, é isso aí! Eu tenho algo pra te mostrar, mundo!”.


Fui pro laboratório ansiosa de verdade. Depois de preencher os dados de cadastro e definir o endereço do blog, parti para a escolha do template. O nome fora fácil – já havia pensado nele antes. Se chamaria “Don’t get me wrong” – “Não me entenda mal”. Era esse o meu lema, minha frase depois de ter escutado uma música intitulada assim.


Template... eram muitas opções, mas eu fui rápida – escolhi um num tom de rosa e lilás, com alguns floreios de enfeite, bem “fofis”, se é que me entendem. Algo assim... que mostrasse um outro lado de mim. Foi o que conclui um tempo depois, quando minha amiga comentou que esperava um blog super descolado, quando lhe disse que havia feito um. Esperava algo que remetesse à minha imagem de roqueira, durona, coisa e tal, e não um todo meigo, floral, assim... “fofis”.


Enfim, a primeira postagem foi um poema antigo, de minha autoria, Intitulado “Eu queria”. Era o poema que eu havia me esforçado mais para concluir. Assim que postei, fiquei toda animada com a idéia de que pessoas que eu nem conhecia iriam ler algo escrito por mim. Imaginem minha alegria quando procurei pelo meu blog num site de pesquisa e ele apareceu, com meu nome – O Google sabia que eu existia! Eba!


Fui pra casa e não me agüentei, tinha de postar logo outra coisa. E tinha em mãos uma crônica recém saída do forno, “A magia do outono”. Mas eu não tinha internet em casa. E aí, o que eu fiz? Corri pra Lan House, com a folhinha na mão e ideias na cabeça!


Um ano se passou, e agora já são mais de 40 postagens, e tenho seguidores, e tenho comentários muuuito legais... já troquei de template, de nome – de “Don’t get me wrong” para “Um lugar entre rosas e anjos...” -, e não sei como será à partir daqui. Espero que ainda venham muitas postagens! E, no decorrer de um ano, vim, por meio desse recurso de divulgação, mostrando à conhecidos e desconhecidos, outras faces de mim, além de ter conseguido amizades por meio do mesmo.


“Meu fiel retrato é minha poesia”, afirmo em um de meus poemas. Minhas poesia, meus contos e pensamentos, crônicas... tudo o que consta neste blog, contém pedacinhos de mim.


E – vou ser sincera agora – me faltam palavras para concluir este post, então vou deixar assim, sem uma conclusão, que é pra passar a ideia de que ainda temos muito pela frente, que não encerra por aqui – o que na verdade é só pretexto para inibir a chatice de minha falta de criatividade momentânea... não é enganação, meus bens. É só jogo de cintura, aprenderam? Fazer com que algo chato se torne algo legal!


Um super beijo à todos, e um último pedido: quero que continuem me lendo, me descobrindo, me conhecendo... Eu estarei fazendo o mesmo.


Michelle Bezerra.

É ANIVERSÁRIO DO MEU BLOG!

Eu poderia começar esse post de uma forma estatística – falando das mais de 900 visualizações, ou as 42 postagens, ou dos 24 seguidores, dos 61 comentários no total... Tudo ao longo de 365 dias, o que nos resumiria à, em média, quase 3 visualizações por dia, 3 postagens por mês, 2 novos seguidores por mês, quase 9 comentários por semana... Tudo estatisticamente -, mas não. Meu negócio não são números, entendem?


Poderia dizer o quanto estou orgulhosa por tudo o que postei neste blog durante esses 365 dias que se passaram, mas... não. Sou uma pessoa muito humilde.


Poderia dizer o quanto sou lenta e preguiçosa – afinal, um ano se passou em só constam no blog 42 postagens?! -, mas também não – tenho amor próprio, no final de tudo!


O que eu realmente quero dizer, é obrigada, um grande e sincero obrigada à todos e todas que acompanharam meus “suspiros poéticos e literários” – ah... já disse o quanto gosto de chamá-los assim? – e ainda me deram a honra de saber que o que eu escrevia agradava, que o que era postado, estava sendo lido e propagado, e para um artista – seja de que ramo for -, nada é mais importante e gratificante do que saber que suas obras estão sendo apreciadas!


Ás vezes penso se, algum dia, quem sabe, chegarei a publicar – ou mesmo a escrever – um livro. Não sei se chegarei lá um dia, tenho esperanças, é claro. Mas, por hora, me contento e muito com a idéia de que as pessoas que mais amo, e ou admiro, e tenho a honra de poder compartilhar da amizade, apreciam o que escrevo. E me contento ainda com a certeza de que se, num futuro distante, eu realmente chegar a publicar um original, essas pessoas estarão na fila de autógrafos, e se forem somente essas pessoas e mais ninguém, eu já fico muito muito contente!


Muito obrigada à todos vocês que visitam meu blog!

sábado, 2 de abril de 2011

Coração de Margarina...

Quando minha mãe me acordou naquela manhã, eu já estava muito assustada. Tinha seis anos, e era meu primeiro dia de aula na 1ª série. Ansiosa, animada, assustada, arrepiada, amedrontada... me revezando em sentimentos que começam com "A".


Pensava em como havia sido na pré-escola, e em como seria diferente agora, na primeira série.

Mas ao ficar de frente para o portão da escola - mesmo com minha mãe ao lado e meu pai no carro logo atrás, sorrindo orgulhoso, incentivante e provavelmente já ciente do que viria à seguir -, percebi que só o prédio e as crianças seriam diferentes, o resto iria ser exatamente igual - eu choraria...!

Eu chorei. Lembro de dizer à minha mãe que estava com dor de barriga, agora não sei se de nervoso mesmo ou como um falso pretexto para minhas lágrimas abundantemente vergonhosas. Não queria largar da minha mãezinha de jeito nenhum. De fato, não larguei. Ela teve que me acompanhar até a sala de aula e me colocar sentadinha na carteira, sob o olhar de todas as outras mães e seus filhinhos de olhos sequinhos. Por que não nasceram todos chorões para que pudessem me apoiar?! As crianças deveriam ser mais unidas e solidárias, e quando uma chorasse, todas chorassem também - e acho que acabei de pintar o quadro dos horrores de todas as mães...!

Acho que ganhei fama logo no primeiro dia. Chamavam-me de "A Chorona". E minha mãe, sendo mãe e boa mãe, não ficou de fora - chamavam-na "A Mãe da Chorona". Até hoje a abordam assim: "Oi, você é a mãe da chorona! Como ela está? Chorando muito?"... Ah, o amargo preço de da fama... as pessoas simplesmente não te esquecem!

Fiz minha primeira grande amizade também. Ela sentava atrás de mim na sala de aula e suas primeiras palavras para mim foram: "Oh, chora não..." - que lindinha... mal sabia que me consolaria pelos próximos dez anos!

E os anos se passavam... e as lágrimas continuavam caindo, e a fama continuava aumentando - não querendo ser sensacionalista, mas acho que até virei boato nas escolas vizinhas...!

A questão era que eu não parava de chorar e chorava por tudo. E eu não era e nem sou uma pessoa infeliz!! Por que será que eu chorava e choro tanto? A única certeza que tenho até hoje é que minhas glândulas lacrimais são super-hiper-mega-master-blaster-plus-sensíveis à qualquer oscilação de emoções. E o que mais? Talvez um pouco de auto-piedade... eu me via chorando e pensava: "Ah, tadinha de eu...", e chorava ainda mais!

Quando aquilo começou a me perturbar de verdade - acho que foi no dia em que a professora ensinou os derivados do leite e a diferença entre manteiga e margarina: "Manteiga é mais gordurosa, sempre prefiram margarina!" -, fui conversar com meu pai à respeito. Perguntei bem inocentemente: "Pai, por que eu choro tanto?". Seria demasiado previsível se eu disser que chorei?...

Meu pai, que já gostava de filosofar, me colocou no colo e contou uma história.

"Era uma vez, uma garotinha muito esperta e sorridente, que parecia estar sempre feliz. Mas, como todo mundo, ela ficava triste às vezes, só que ninguém percebia".

"Por quê?" perguntei.

"Por que ela não chorava. Nunca chorou. E quando ela percebeu isso, ficou ainda mais triste. E mesmo assim, ainda não chorava.

Todos vinham falar com ela, mas ninguém percebia o quanto ela sofria. Até que um dia ela fugiu para a floresta, onde decidira viver pelo resto de sua vida.

Os aldeões passaram a procurar por ela, pois seus pais estavam muito preocupados.

Eles chamavam seu nome e em seguida se calavam, esperando ouvir o som de seu riso sapeca, que era o que mais conheciam da menina. Achavam que ela estava em algum tipo de brincadeira. Mas não ouviram nada.

Não muito distante deles, a menina estava oculta por debaixo de folhas de samambaias, bem quietinha, tentando chorar. Mas ela não conseguia, não sabia como fazer, não conhecia o ato de chorar, e então desistiu. Quis dormir, fechar seus olhos para sempre, já que deles não saía nada.

Foi então que ouviu um barulho estranho - parecido com de asas batendo - e, em seguida, passos tão leves que mal se faziam ouvir e vinham se aproximando.

Abriu os olhos devagar e viu um anjo.

Ela não disse nada, e ele ficou olhando. Quando falou, era a voz mais bela que ela já ouvira. E ele perguntou:
- Por que você está triste?

- Como sabes que estou triste? - ela retrucou. - Como sabes, se não estou nem chorando? Acho que eu tenho olhos de vidro e coração de gelo, que é como meu pai diz de gente que não chora...

- Seu coração é doce e quente - o anjo falou -, e seus olhos são como o céu de noite, são infinitos... Mas sua alma chora, e está perdida nesse infinito. Tem medo de se mostrar...

A menina ficou assombrada. Não era assombro de medo, horror. Era de outra coisa, mas não sabia explicar...

- Está tudo bem - o anjo garantiu. - Eu estou aqui para proteger-te e reconfortar-te. Não quero vê-la assim tristonha. Não tenha medo de mostrar sua alma. Ela é bela.

E, naquele momento, sua respiração acelerou e ficou difícil engolir. Sentiu uma aflição no peito, bem no coração, e sentiu que algo escorria de seus olhos. Ainda mais assombrada, levou os dedos aos cantos dos olhos, e, ao afastar uma das mãos, percebeu em seu dedinho uma gota de água que reluzia sob a luz do luar. Era a sua primeira lágrima e a coisa mais linda que já vira em todo o mundo. Ela sorriu, e foi pegando lágrima por lágrima, colocando uma em cada dedo, mas algumas escorriam por seu rosto, molhando suas bochechas, e ao libertar o que para ela era um sinal de tristeza profunda, sentiu muita felicidade.

Continuou à olhar para suas pequenas gotinhas, pensava em como brilhavam. Pensou que seus olhos estavam brilhando da mesma maneira.

Eram tão lindas, que pediu ao anjo que lhe fizesse um favor.
- Quero que eternize o brilho de minhas lágrimas, para que todos os dias, até quando não chore, eu possa vê-las.

O anjo respondeu:
- Vou eternizá-las assim como as vejo em seus olhinhos... brilhando no infinito do céu da noite; vou transformá-las em estrelas!

- Não só de minhas lágrimas, transforme em estrelas todas as lágrimas dos olhos de todo o mundo!

O anjo se levantou, deu um beijo na testa da menina e alçou voo. A menina continuou olhando para o céu. De repente, de uma em uma, as estrelas foram surgindo no céu escuro, que brilhava tanto quanto os olhos da menina, que eram infinitos...

A menina voltou para sua aldeia, e sempre que chorava, era a pessoa mais feliz do mundo, e o céu cada vez mais estrelado...

E fim!"

Meu pai terminou a história e esperou que eu falasse.

"Então... chorar é bonito?" perguntei.

"Sim, porque é quando você revela sua alma. Nunca se envergonhe disso. A menina temia ter um coração de gelo, mas, na verdade, o coração dela era assim igual ao seu: coração de manteiga."

Meu pai sorriu, mas eu me lembrei da lição da professora naquela manhã e discordei:

"Eu? Coração de manteiga? É margarina, que manteiga é mais gordurosa... Até parece nome de história... Coração de Margarina...!"


*Dedicado à minha amiga Bia - que entende melhor que ninguém esse "coração de margarina" - e com uma referência especial à minha amiga Sabrina - que me disse "Oh, chora não" no meu primeiro dia de aula...!