terça-feira, 25 de maio de 2010

Já não mais...

Já vi a esperança
Mas hoje não a reconheço.
Apenas me passa uma vaga lembrança
Mas que dela logo me esqueço.


Já vivi em plena harmonia
Mas hoje estou à beira da morte
Vago-me de uma breve alegria
Ao ver que ainda me resta a sorte.

Vivo de algumas recordações
Daquelas que não me esqueci
Meus sonhos soam como canções
E por eles é que estou aqui.


O que penso...

Miscigenação e Racismo


Discriminar semelhantes por cor de pele, é renegar a sua própria descendência. Não existem hoje - pelo menos no Brasil – os chamados de “berço puro”, livres de miscigenação - estes simplesmente não existem. Com tantas culturas diferentes, tantos países misturados, é impossível que um destes tenha se mantido na “linha reta”, apenas se relacionando (interagido) com seus irmãos de terra – o desconhecido é tentador demais para ser ignorado. Hoje em dia, corre sangue do mundo inteiro, nas veias de um só brasileiro.

Um Conto, Estrelas e Sonhos




Podem os sonhos mudar os olhos do homem diante do mundo? Filhos da fantasia, arautos da ilusão. Os sonhos enganam e encantam. Como acreditar em algo tão sedutor quanto inconstante?”
Foi o que meu pai uma vez me disse, quando eu era ainda muito pequena para compreender. Voltei meus olhos aturdidos para minha mãe, que simplesmente falou: “Os sonhos revelam o que está oculto em nossos corações”. Eu era muito pequena para entendê-la também. Lembro-me de sair da sala quando os dois começaram a discutir – eu não suportava gritos.
Subi para meu quarto e me escorei na janela, fitando o horizonte. A discussão ainda era ouvida lá embaixo. E tudo começou porque eu perguntei o porquê de meus sonhos serem tão esquisitos. Noite passada, sonhei que as flores brotavam nas nuvens do céu e faziam chover pólen – e eu nem sabia como era o tal do pólen, mas sabia que aquela coisa do meu sonho, era pólen.
Suspirei alto e me virei irritada para a porta de meu quarto, de onde vinham vozes cada vez mais exaltadas. Suspirei mais uma vez.
- É tão inquietante quanto desagradável que algo de uma beleza tão pura como a palavra sonho saia da boca dos leigos de forma exaltada, exasperada e frustrada, quando deveria soar como a mais bela música de todo o mundo – tagarelou uma voz desconhecida detrás de mim, da janela. Virei-me de uma vez, mas antes do susto, me veio irritação.
- Por que todos insistem em falar difícil com uma criança de apenas cinco anos e meio que não sabe nem mesmo soletrar o próprio nome?! – lembro de perguntar. E depois disso, me veio o susto.
Havia um garoto todo colorido sentado com perninhas-de-índio em cima do... vento, foi só o que pude supor, pois o ele flutuava. Sua imagem me fez lembrar daqueles bobos da corte que costumavam aparecer nos desenhos animados. O rosto dele era branco e maquiado, como daqueles mímicos que também costumam aparecer nos desenhos animados. Sua cabeça tombou para o lado – fazendo a bolinhas penduradas no seu chapéu colorido sacudirem e tombarem também – e ele me encarou com perplexidade no rosto brando.

- Você não sabe soletrar seu próprio nome?
Voltou-me a irritação.
- Quem é você? – foi a minha pergunta estúpida. Algo como “O que é você”, ou “o que faz flutuando na minha janela” ou “Em que era as cores berrantes entraram na moda?!”, teriam soado melhor.
O garoto colorido entrou flutuando em meu quarto e pairou na minha frente.
E então começou a recitar.
- Sou aquele que serve ao regente soturno
Que planta a semente para então semear
Que acolhe e inspira os suspiros noturnos
Que guia as mentes antes do despertar...
Ele realmente esperava que eu entendesse aquilo?
- Ah, ta. E isso quer dizer o quê?
Seu rosto glorioso e empolgado desmanchou-se numa careta engraçada.
- Que tal então:
Batatinha quando nasce
Faz nascer uma canção
Menininha quando dorme
Dá asas a imaginação...?
- Melhor – afirmei, contendo o riso -, mas não diz quem você é.
- Tudo bem, tudo bem – ele começou, me olhando zombeteiro. – Sou, em uma linguagem bem mais clara, o arauto do Senhor dos Sonhos; um viajante, que atende pela alcunha Dimitri de Rantov.
Aquela ainda não era uma linguagem muito clara, mas aquiesci.
Lembrei-me do que as pessoas diziam em apresentações formais – “Encantado(a)”. Quando ele me estendeu a mão, ainda flutuando diante de mim, eu a segurei e disse:
- Assustada.
Ele riu e colocou os pés no chão. Ali, de pé na minha frente, ele tinha o dobro do meu tamanho e um jeito de irmão mais velho – sua aura incitava segurança.
Se você está achando estranho e negligente – além de perigoso – da minha parte não sair correndo e gritando do quarto diante de um estranho – um estranho bem estranho, diga-se de passagem... – que invadiu pela janela, em minha defesa, apenas afirmo: eu só tinha cinco anos e não sabia nem soletrar meu nome.
Seu coração está cheia de dúvidas, criança. Dúvidas sobre aquilo que eu mais entendo e ainda isso não é muito. Você questiona o sentido dos sonhos, certo? – ele me encarou de sobrancelhas juntas e lábios franzidos. Eu apenas balancei a cabeça afirmativamente.
- Pois bem, o sentido dos sonhos... Eu mesmo me enveredo pelos caminhos tortuosos da vida em busca da resposta para essa pergunta, e quer saber? Não há resposta.
Eu só entendi a última parte do que ele me falou e isso já me serviu para que eu pudesse argumentar.
- Como pode não haver resposta?
- Não uma resposta definitiva, quero dizer.
- Ah, isso ajuda...! – eu o interrompi, irritada. Ele riu de minha expressão.
- Mas acredito que haja uma resposta única para cada pessoa, entende?
- Não. – Como se precisasse perguntar...
Ele riu outra vez. Passou por mim e sentou-se na beira da minha cama. Fez então um gesto para que eu me sentasse de frente para ele, na poltrona que geralmente era ocupada por minha mãe, na hora das histórias para dormir. Eu obedeci. Vagamente percebi que os gritos haviam cessado lá embaixo.
- Acho que seria melhor – começou ele – se você primeiro entendesse a origem dos sonhos.
O garoto colorido se endireitou, pigarreou e seus olhos esverdeados de longos cílios fixaram-se semicerrados nos meus, para que eu prestasse atenção.
- Havia há muito tempo, um velho sábio que afirmava dispor... digo, ter - ele se corrigiu, diante de meu suspiro de frustração, fazendo uma careta à guisa de desculpas – todo o conhecimento do mundo. Eis que um dia, aparece em sua porta uma pessoa especial que lhe diz que ele possuia muitos conhecimentos que ainda eram ocultos a ele. O velho então se sentiu incompleto, e não sabia o que fazer para desvendar os conhecimentos ocultos dentro de si. Ficou por dias e noites tentando e tentando, até que o cansaço o tomou e ele adormeceu. E enquanto dormia, imagens afloraram e sua cabeça. E ele soube de alguma forma, que aquelas imagens eram a chave para desvendar o mistério. Conclui que nunca seria capaz de possuir todo o conhecimento do mundo e que ninguém nunca o faria tão pouco. Mas achava que todos deviam ter a chance de ao menos compreender o que já se encontrava dentro de si, a verdade sobre o seu ser. Pediu então às estrelas que plantassem os sonhos na mente de todas as pessoas, e cabia a elas escolher se buscariam a verdade ou iriam ignorá-la para sempre. E fim! – terminou, com um sorriso inesperado, depois de se manter sério por todo o tempo em que estivera narrando. E tenho que admitir que fiquei impressionada com a história.
- Então você quer dizer que tenho de buscar as respostas para meus sonhos esquisitos por mim mesma? – conclui.
- Ora! – exclamou. – Para uma garota de cinco anos que mal sabe soletrar o próprio nome, isso foi muito perspicaz. Digo... “acertou na mosca!” – completou, escondendo o riso.
- Os sonhos são então... como charadas, certo? – afirmei. Ele sorriu e confirmou, incitando-me a continuar. – Mas eu nunca fui boa com charadas... E se...
- Se você não conseguir? Bobagem! É tão simples! É você mesmo que torna as coisas difíceis. Basta prestar atenção ao que o sonho quer te dizer. Simples!
- Diga-me uma coisa, moço: Você sonha?
Um olhar triste passou por seu rosto, mas não por tempo suficiente para aturdi-lo. Só um tempo depois – ontem, na verdade, quando me lembrei (num sonho) deste fato ocorrido há dez anos – percebi que este era um dilema antigo para ele.
Respondeu apenas:
- Eu poderia, se quisesse, mas teria de abrir mão da maior e mais bela missão que já recebi.
- E qual seria?
- Projetar os enigmas chamados sonhos – ele respondeu, e de alguma forma milagrosa eu compreendi – ele era um Criador de Sonhos.
Não era preciso que se dissesse mais nada. O olhar presunçoso que ele me lançou deixou bem claro que ele compreendia que eu havia compreendido.
Houve silêncio, por um momento. E então ele se levantou.
- Já é o poente... É hora de partir. - Eu me levantei também, mas não pude dizer nada. Havia um turbilhão de coisas na minha cabeça e ela girava. Ele se aproximou e disse:
- Foi um prazer, senhorita. Espero que possamos nos encontrar uma outra vez. Até lá, passe bem. – ele se curvou cordialmente e começou a levantar vôo. - Ah! E preste atenção no seu sonho de hoje, daqui a pouco. Vou preparar um especial para você.
Eu assenti, com um nó na garganta quando ele se dirigiu à janela. Já do lado de fora, ele se virou e acenou para mim, e então partiu para as estrelas. Uma lágrima escorreu pelo canto de meu olho.
Naquela noite, fui dormir um pouco mais cedo do que de costume. Fechei os olhos bem apertados e esperei. Aquelas já conhecidas nuvens de flores pairavam no céu, a minha espera, e de repente começou a chover de leve, mas não era a mesma chuva de meu último sonho. Era uma chuva de letrinhas. Um grupo de seis veio em minha direção e pairou diante de mim, na seguinte ordem – B-I-A-N-C-A. Reconheci meu nome. Olhei para o céu – incrivelmente estrelado - e fitei um sorriso familiar...
Fim