quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Otimismo

Acordou com o canto de um passarinho solitário, porém de timbre afinado e disposição pra manhã inteira...


Acordou sem abrir os olhos, mas sentindo o sol invadir sua casa e tocar suas pálpebras, suave e delicadamente...

Manteve os olhos bem fechados, procurando ausentar-se do mundo naquele vão entre o sonho e o estar desperto... a semiconsciência lhe permitiu notar - pela ausência de cheiros e certa dificuldade em respirar de boca fechada - que ainda estava resfriado. O elo com o sonho lhe permitiu não ligar, e explorar um sentido que estava mais do que aguçado naquela manhã...

Ouviu o barulho de água correndo não muito longe dali... ouviu o vento avançar contra uma árvore e levar embora metade de suas folhas amarelas - era outono, portanto, a árvore não oferecia resistência. Queria logo era experimentar sua folhagem nova, que demoraria um tantinho para aparecer, mas ela decidira que valia a pena esperar... e aguentar o vento despindo-a sem remorso algum, como uma criança sapeca que só quer se divertir...

Uma gota de água pingou bem na ponta de seu nariz... teve de abrir os olhos, mas não se importou. Era uma boa maneira de se acordar - ou melhor, de ser acordado. Era uma gotinha danada que se escondera das irmãs na chuva que caíra ontem à noite, e esperou até de manhã para cair no nariz do menino, que sorriu e se levantou da cama, um colchãozinho velho largado no chão, num dos único canto da casa - exceto por aquela gotinha matutina - sem goteira na noite anterior.

Logo já estava na cozinha, tomando às pressas o café da manhã com gostinho de remédio antigripe que a mãe o fizera tomar. Tinha marcado jogo com os meninos da comunidade, lá embaixo, no pé do morro, num campinho improvisado.

Passou pela casa do Seu João, onde o passarinho ainda cantava à plenos pulmões em sua gaiola apertada, pendurada no teto da varanda. Pulou o córrego que só não o incomodava hoje porque suas vias nasais ainda estava congestionadas - que sorte! -; a árvore continuava a ser despida pelo vento ousado, e ainda não caíra sobre a casa a qual mantinha-se perigosamente inclinada, obrigando o Seu Zé a se mudar prum canto mais pra cima do morro.

Um moleque, uns anos mais velhos que o menino, passou correndo pelo mesmo e foi se esconder em algum buraco da comunidade. O menino esperou pelo aviso - "a polícia tá subindo o morro" -, mas só outras crianças apareceram, correndo e sorrindo. Pique-esconde.

E o menino continuou descendo, aproveitando a bela manhã de sol depois da noite de chuva. Não tirava da cabeça que ia marcar muitos gols, pois aquele parecia ser um dia de sorte...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Introduzindo... contos de fadas...!

Foi numa tarde qualquer em meio a um daqueles jogos de tabuleiros, que uma amiga muito especial - irmã de uma amiga também muito especial, e amiga da minha irmã que é tão especial quanto... - e eu começamos a inventar estórias, sentadas no tapete da sala que, segundo dizem, é lugar de criança... (e também bichinhos de estimação, mas isso não vem ao caso...).


Começava assim a rodada do "era uma vez", onde uma de nós começava a contar um causo qualquer e a outra dava continuidade, e assim íamos, sempre intercalando...

Talvez eu estivesse malvada ou moralista demais naquele tarde - tentei de qualquer forma estabelecer finais não muito convencionais a contos de fadas, onde os personagens não estavam de todo contentes, mas nem por isso assim tão infelizes, ora... (eu só queria que eles aprendessem a lição, sabe?...)

Mas aquela tarde-quase-noite não era de malvadeza ou moralismo excessivo: era a tarde-quase-noite da luta incessante pelo 'felizes para sempre'...

E minha amiga lutou bravamente para conquistar o final feliz para cada história - até fez surgir, em um dos contos que postarei a seguir, um duende super-hiper poderoso cujo feitiços não podiam ser desfeitos (ou confundidos com sonhos) por nada nesse mundo...!

Ao final da brincadeira - que durou menos de uma hora -, tínhamos em nossas mãos... ou melhor, em nossas lembranças fresquinhas, três contos que, por mais simples que fossem, não vi possibilidade de serem esquecidos.

Foi aí que tive a ideia de redigi-los e postá-los aqui no blog, pra que todo mundo pudesse ler a apreciar uma arte que a gente fez brincando.

Bem, faz um tempinho já que tive essa ideia, e um tempinho também que as estórias estão redigidas e prontas para serem postadas...

Só tava faltando um post de introdução, que demorei demais para elaborar, diga-se de passagem...

Mas enfim, finalmente está pronto, e sem mais delongas, apresento-lhes...


Por Mariana Oliveira e Michelle Bezerra.

A pequena garotinha no mundo dos gigantes

Era uma vez, uma pequena garotinha que vivia em um mundo mágico, com seres fantásticos, cheio de cores e cheirinho de algodão doce.


Era uma garotinha aventureira. Short, camiseta e seus cabelos loiros sempre soltos, estava sempre pronta para explorar cada canto daquele pequeno mundo cheio de magia.


Mas um dia, ela resolveu se aventurar por caminhos desconhecidos, e, distraída como era, nem mesmo percebeu tal ato, até que se encontrou em um mundo muito diferente do seu. Um mundo onde as pessoas eram dez vezes maiores do que aquelas que conhecia, e onde tudo era muito, muito grande para ela. Era o mundo dos gigantes.


No entanto, não eram gigantes como os das histórias que lhe foram contadas e que tanto a assustavam. Ali, os gigantes não tinham a pele acinzentada e enrugada, nem o rosto coberto por verrugas e nem caretas feias e ferozes. Seus dentes eram bem brancos, e não tortos, e as unhas bem cuidadas, e não como cascos de cavalos.

E a principal diferença, como pôde perceber, era que esses gigantes não tinham o péssimo hábito de comer criancinhas, o que foi um alívio.


Esses vestiam-se elegantemente, e suas feições eram delicadas. Uns mantinham expressões sérias, outros estavam completamente descontraídos.


A garotinha logo se encantou por aquele estranho mundo novo, e decidiu que queria morar nele.


Mas uma fadinha amiga, que sempre a acompanhava em suas aventuras, à advertiu, dizendo-lhe:


- Você é pequena demais para esse mundo, pode acabar sendo esmagada! Seria muito imprudente querer morar aqui!


Tomando a advertência da fada com séria preocupação, a menina tratou logo de arranjar uma solução. Pensou por alguns minutos, e então falou, com clara convicção:


- Faça com que eu fique assim bem grande, fadinha! Me transforme também em gigante, por favor!


A fadinha alertou mais uma vez para os riscos daquela decisão, mas a menina insistia tanto, que ela acabou cedendo.


E com um leve floreio de uma varinha mágica, a pequena garotinha foi ficando grande, e maior, e tão grande que já nem mesmo conseguia ver a fadinha, tão pequenina lá em baixo, junto a seus pés.


Ficara tão grande quanto qualquer outro gigante daquele estranho mundo ao qual agora, segundo ela, pertencia.


E ainda assim, sentia-se diferente. Olhou para as pessoas ao seu redor: eram do mesmo tamanho, mas ainda não se pareciam por completo.


Abismada, procurou por sua amiga fada para que esta lhe apontasse o que ainda lhe faltava, mas não conseguiu encontrá-la – a pobre fadinha era agora pequena demais para seus olhos tão grandes, olhos de gigante.


E os gigantes estavam sempre em movimento, a menina logo percebeu. Andavam de um lado para o outro, num ritmo apressado, sem nunca cessar. Ela acabou sendo empurrada por aquela multidão, e levaram-na para lá e para cá, até que, sentindo-se completamente perdida e desorientada, ela adentrou pela primeira porta que viu a sua frente. Olhou ao redor, e pode perceber que se tratava de uma loja – uma loja de poções.


A atendente – uma mulher idosa que muito lembrava uma bruxa do mundo mágico de onde a menina viera – perguntou o que ela desejava. E a menina respondeu:


- Quero ser como os gigantes que vejo lá fora.


A velha aproximou-se devagar, e sem dizer nada, voltou-se de súbito para suas estantes, e trouxe de lá um frasco com um líquido vermelho. Desse líquido, derramou apenas uma gotinha bem no topo da cabeça da menina, e foi o bastante para que de repente uma densa fumaça a envolvesse por completo. Quando aquela fumaça finalmente se dissipou, havia um espelho à sua frente, e nele, a menina mal pode reconhecer o reflexo diante de si.


Não usava mais short nem camiseta, e seus cabelos não estavam mais soltos. Vestia-se elegantemente, e seu cabelo estava preso em um penteado estranho, tal qual das senhoras gigantes que via lá fora. E seu rosto estava pintado – não como o de um bobo da corte, mas, para ela, tão bizarro quanto, apesar de discreto.


Era agora, uma gigante de fato.


Antes que saísse dali, a velha cobrou-lhe pagamento pelo serviço. A menina nãos sabia o que poderia servir de pagamento, e a velha sugeriu que ela lhe cedesse um fio de seu cabelo. A menina achou estranho, mas por fim concordou, pensando que um só não lhe faria falta. O que ela não sabia, é que aquele fiozinho de cabelo continha parte de sua magia, da magia de seu mundo. E assim, ela perdeu parte de sua magia, uma parte bem pequena, mas que jamais seria restaurada.


Ela podia não saber, mas a velha sabia muito bem.


Quando voltou para a rua, colocaram-na para trabalhar. “Todo gigante trabalha”, era o que diziam. E logo ela estava também andando de um lado para o outro, sempre apressadamente.


E no meio daquela correria, a pequena gigante sentiu falta de casa. Tentou encontrar o caminho de volta, mas não conseguia se lembrar onde ficava. E lembrou-se de sua fadinha, pequena demais para seus olhos tão grandes.


E então lembrou-se de seu caderno mágico.


Há um tempo atrás, ela ganhara de seu pai, de presente de aniversário, um caderno mágico, no qual tudo que se desenhava, ganhava vida.


Trazia o caderno sempre consigo, dobrado ao meio cuidadosamente e guardado no bolso do short que estivesse usando. Não tinha muitas folhas, por isso, a menina só o usava em ocasiões especiais ou emergências.


E estar perdida em um mundo de gigantes era com certeza uma emergência.


Procurou por dentro das roupas novas – A antiga ainda estava ali embaixo. Decidiu então despir-se daquela fantasia que nunca devia ter vestido e então tirou o caderno do bolso do short – que sorte ainda estar ali!


Sentou-se no chão e, com o lápis que sempre trazia junto ao caderno, riscou sem hesitar traços imperfeitos, que compunham uma figura peculiarmente linda, mais do que se desenhada em medidas exatas.


Logo, tinha ali naquele papel mágico, uma linda fada.


Ela despertou devagarzinho, e pouco a pouco foi saindo do papel, apenas um desenho linear e plano, mas que logo foi ganhando formas e cores.


A menina estava tão feliz em ter reecontrado sua amiga fada que quase se esqueceu de seu pedido. Quando a fada lhe perguntou se estava bem, ela respodeu:


- Fada, sinto saudades de casa, e quero voltar. Quero voltar para meu mundo. Faça com que isso tudo seja um apenas um sonho, e faça com que eu desperte em minha casa, por favor!


A fada queria muito ajudar sua amiga, mas sabia que seria difícil realizar tal pedido em mundo com tão pouca magia. O tempo que ela havia ficado ali a enfraquecera. Mas ela decidiu tentar, alertando a menina de que se não conseguisse, ela só poderia voltar para casa depois de cem anos, e prometendo que se empenharia ao máximo.


Com seus olhinhos fechado em concentração, a fadinha sacudiu sua varinha ao redor da menina, que foi ficando cada vez mais sonolenta, até fechar completamente os olhos cair adormecida.


Depois de alguns minutos, ela voltou a abrir os olhos, mas percebeu com grande tristeza, que ainda se encontrava no mesmo lugar. Estava tudo igual, exceto uma coisa- sua fada havia desaparecido.


Talvez a fada é que tivesse sido um sonho, pensou. Afinal, como um ser tão mágico poderia existir em mundo com tão pouca magia? Talvez tenha sido só sua imaginação. Teria de ficar ali por cem anos até reecontrar sua amiga alada. E cem anos naquele mundo de gigantes, que outrora lhe parecera tão fascinante, agora parecia uma ideia assustadora.


Pegou novamente seu caderno mágico, e decidiu que não podia ficar naquele mundo estranho por tanto tempo.

Não podia desistir de tentar voltar.


Estava tão preocupada com sua fada. Será que estaria bem? Será que conseguira voltar?


Lembrou-se então de uma história antiga, que sua mãe costumava lhe contar, sobre um duende mágico muito poderoso, capaz de realizar qualquer magia, estando onde estivesse.


E apesar ter passado muito tempo desde que alguém o vira, e até mesmo dúvidas quanto se era real ou não, existiam muitas gravuras representando seu semblante.


E lembrando-se dessas gravuras, a menina retomou seu caderno nas mãos e começou a desenhar uma outra vez. Se fosse real ou não, ela teria de arriscar.


Em poucos minutos, tinha em seu caderno a figura de um homenzinho pequeno, verde e de orelhas pontudas. Ele permaneceu imóvel por um bom tempo, tanto que a menina pensou que não daria certo, mas então, o duende esboçou um leve sorriso, e começou a se levantar do papel, ganhando formas, cores e vida.


Ainda sorrindo, ele se dirigiu a menina e a agradeceu fervorosamente, pois trazendo-o até ali, ela o havia libertado de uma maldição antiga que o havia aprisionado em um mundo ainda mais distante há muito tempo atrás.


Agradecido, o duende se dispôs a conceder um pedido à menina, que simples e tristemente falou:


- Eu quero ir para minha casa.


Comovido com as súbitas lágrimas e com a intensidade de seu pedido, o duende não tardou em conceder-lhe, e mais uma vez a menina adormeceu sob um encantamento mágico.


Ao acordar, foi abrindo os olhos vagarosamente, temendo estar ainda naquele mundo estranho dos gigantes.


Mas então sentiu um leve aroma de algodão doce, e ouviu ao longe o riacho que corria ao redor da vila onde morava, e quando seus olhos estavam completamente abertos, a menina exultou de felicidade – finalmente estava de volta ao seu mundo mágico e cheio de cores.


Fechou e abriu os olhos novamente, para se certificar de que não sonhava, e tendo a certeza de que não era sonho, ficou ainda mais feliz.


Estava de volta ao seu tamanho normal também, e isso a fez lembrar-se de sua amiga fada.


Antes que se desesperasse, a fadinha apareceu ao seu lado, um tanto confusa.


- Nos voltamos? – ela perguntou.


A menina lhe respondeu que sim, e lhe falou sobre o duende que lhe ajudara. Ela pensou que ele apareceria a qualquer momento, mas passado algum tempo, como ele não aparecesse, ela começou a procurar. A fadinha a ajudou, mas mesmo assim, não o encontraram.


Voltando para o lugar onde despertara, a menina encontrou duas coisas – seu caderno mágico e uma carta.


A carta era do duende, e ele lhe dizia que apesar de tê-la ajudado, não poderia voltar para aquele mundo, seu mundo, pois ainda havia muitos mundos a explorar, e era isso o que ele queria - continuar explorando. Os duendes sempre foram muito curiosos.


Já para aquela garotinha, explorar era algo que pretendia nunca mais fazer. Mas a fada sabia que em pouco

tempo ela estaria se aventurando mundo afora outra vez, e sabiamente, lhe falou:


- Explorar e descobrir novos mundos são coisas que podemos sempre fazer, pois há muito a ser descoberto.

Mas jamais devemos nos esquecer de quem somos ou de onde viemos. Assim, poderemos sempre encontrar o caminho de volta para casa.


Logo começou a anoitecer, e as duas se despediram. Cada uma foi para sua casa. Para aquela pequena garotinha, parecia que havia passado um ano desde que saíra para se aventurar naquela tarde. Mas para seus pais, uma tarde apenas havia se passado, e eles a receberam como em qualquer outro dia de aventuras ou travessuras.


‘Como se tivesse sido um sonho’, o duende lhe escrevera.


Mas para ela, nunca iria ser. Tomou seus pais em um abraço apertado, e lhes disse que sentira muito a falta deles. Ambos estranharam o ato, mas retribuíram com a mesma intensidade, e passaram a noite inteira ouvindo a história da grande aventura que ela tivera naquele dia.


Depois de contar toda a história, a menina percebeu, tanto quanto a fada, que logo estaria se aventurando novamente, e prometeu a si mesma que, por mais longe que fosse, jamais se esqueceria de voltar para casa.


E todos foram felizes para sempre.

O gigante e o espelho

Era uma vez um gigante muito bondoso que morava numa floresta distante.

Ele adorava ajudar os animais que viviam por lá, e gostaria muito de ajudar também os moradores de uma vila ali perto, mas sempre que se aproximava, os aldeões se afastavam ou preparavam-se para atacá-lo.

Ele não entendia muito bem o porquê, e foi conversar com um pássaro amigo.

Perguntou ao pássaro:
- Por que os aldeões têm medo de mim?

O pássaro, que gostava muito de seu amigo gigante, ficou sem jeito de responder, e com receio de magoá-lo, disse-lhe que só um espelho poderia lhe revelar essa questão.

Como não tinha um espelho, o gigante tratou logo de construir um bem grande que lhe refletisse por inteiro. Construiu-o com muito cuidado, para que só visse seu reflexo nele quando estivesse totalmente pronto.

Tendo terminado o serviço, ergueu o enorme objeto, tomando o cuidado de mantê-lo coberto por um manto. Deixou-o completamente erguido, e depois de se posicionar bem em frente ao espelho, puxou o manto que o cobria, e ao ver-se ali refletido, não pode conter a tristeza. Finalmente entendeu o motivo pelo qual era tão temido e rejeitado – era um gigante feio.

Revoltado com o próprio reflexo, ele quebrou o espelho que mais cedo havia construído, e passou a odiá-los por refletirem seu rosto feio.

E teve então uma ideia – pensou que eram os espelhos que diziam para as pessoas quem era feio e quem era bonito; talvez, se quebrasse todos os espelhos da vila, as pessoas deixariam de se preocupar com as aparências, e o aceitariam como um deles.

E foi naquela noite que ele invadiu a vila, entrou de casa em casa e quebrou cada espelho que encontrou pela frente. Grande e desajeitado, sua cabeça tocava o teto das casinhas e seus braços e pernas compridos acabavam quebrando mais do que só espelhos. Por sorte, não feriu nenhum dos aldeões, que se juntaram para expulsar o gigante da vila. Ele tentou explicar que sua intenção era destruir aquilo que não os deixava ser amigos, mas vendo que só conseguira ser ainda mais odiado, foi embora dali, completamente entristecido.

Caminhou durante toda a noite, sem se preocupar com que direção seguia. Quando começou a amanhecer, ele estava cansado e com muito sono, e por sorte, encontrou mais a frente uma enorme fazenda, onde talvez pudesse descansar.

Só que a fazenda era, na verdade, um CRG – Centro de Reabilitação de Gigantes.

Ao entrar, ele se deparou com muitos gigantes que conhecia, e até alguns parentes. E todos, assim como ele, haviam partido por se sentirem excluídos. E todos, assim como ele, eram grandes e feios.


Mas, curiosamente, naquele lugar eles não se sentiam mais assim. Apesar de não terem mudado nem um pouco desde a último vez que o gigante os viu, todos ali diziam-se mais bonitos do que eram antes, e mais felizes também.

O gigante foi procurar o dono do lugar, pois achava aquilo tudo muito estranho. Talvez o dono fosse um bruxo ou algo assim, e tivesse enfeitiçado à todos.

Para sua surpresa, não era um bruxo. Era um senhor idoso, bem pequeno e de expressão muito bondosa. E, como o gigante pôde constatar depois, também era cego.

Perguntou ao homem como os outros gigantes podiam se achar mais belos se continuavam como sempre foram. E o velho homem respondeu:

- É porque agora, não ligam para sua aparência externa. O que lhes importa é o que está dentro, sua beleza interior. E foi isso que vieram aprender aqui – à enxergar essa beleza.

- E como pode ensiná-los a enxergar, se o senhor mesmo não é capaz de fazê-lo? – o gigante perguntou, e logo se arrependeu, temendo tê-lo ofendido.

O velho sorriu, e respondeu:

- Posso não ver o mesmo que seus olhos lhe mostram, meu caro. Mas garanto que sou capaz de enxergar mais do que você pode ver. Posso, por exemplo, enxergar o quanto seu coração é bondoso, e quanto está tomado de tristeza e arrependimento.

O gigante encantou-se pelas palavras daquele velho homenzinho, e por sua enorme sabedoria, mas ainda tinha outras perguntas.

- Mas por que eles continuam aqui? Por que não voltam para suas casas?

- Porque temem os olhos do mundo lá fora. Se escondem aqui, pois apesar de serem capazes de reconhecer a beleza em si, temem o que as outras pessoas possam lhes fazer por não reconhecerem o mesmo.

O gigante se sentiu fraco ao pensar que queria ficar ali também. Mas sabia que nem ali seria capaz de esconder a sua feiúra, pois não era a de seu rosto que lhe atormentava mais – era a de seu coração. O que ele fizera na noite anterior fora uma coisa muito horrível, e ele precisava se desculpar.

Despediu-se do velho homenzinho e de seus amigos gigantes, e tomou caminho de volta para casa. Tinha esperança de que um dia, todos ali fariam o mesmo.

Depois de uma longa caminhada, pôde avistar ao longe a aldeia onde causara tantos estragos. Mas antes de se aproximar, tinha algumas coisas a fazer.

Passou o dia inteiro trabalhando duro em sua oficina, sem parar para descansar.

Na manhã do dia seguinte, ele se dirigiu à aldeia puxando um enorme carrinho carregado de coisas – panelas, mesas, cadeiras, camas, espelhos – muitos espelhos. Quando os aldeões viram-no se aproximando, ficaram alarmados, mas antes que pudessem expressar qualquer outro tipo de reação, o gigante começou a distribuir e objetos e pedidos de desculpa para todos os presentes. Comovidos com sua atitude, os aldeões aceitaram os objetos e lhe agradeceram muito, elogiando seu enorme talento em construir tais artefatos.

Convidaram-no para um grande jantar naquela noite, para agradecê-lo e pedir desculpas por todas as vezes em que lhe expulsaram da aldeia, mas o gigante já tinha preparado um jantar para todos em sua casa, e ninguém da aldeia recusou o convite.

Desde então, o gigante continuou morando em sua casa, mas sempre que podia, passava na aldeia para trabalhar junto com os outros aldeões e ajudar quem precisasse, e todos o tratavam muito bem.

E assim, viveu feliz para sempre.

domingo, 21 de agosto de 2011

Estrelas cadentes



Olhava as estrelas no céu, com enorme fascínio. Perdia-se no infinito estrelado do céu da noite. Era capaz de ficar horas apenas fitando-as, sem se preocupar com mais nada.




Um dia, lhe contaram sobre as estrelas cadentes. A menina, que queria saber tudo sobre as estrelas, decidiu que veria, dentre tantas estrelas no céu, ao menos uma cair.

E todas as noites, postava-se diante da janela do quarto mais alto da casa e ficava a olhar para o alto. Passado algumas horas, cansou-se, e puxou um banquinho para si. Não durou muito e uma amiga sentou-se em um banquinho ao seu lado. A menina não lhe deu muita atenção, nem mesmo lembrava de seu nome, só que começava com a letra 'E'.

Nas primeiras noites, não tivera sorte. Nem uma única estrelinha oscilou em sua posição lá no alto. Em algumas noites, a menina tinha de pedir as nuvens que se retirassem, pois lhe impediam a visão. Estas iam-se embora aborrecidas, e por vezes lhe jogavam gotas de chuva.

Por ter de ficar acordada a noite inteira, a menina dormia durante o dia, e já não descia do quarto mais alto da casa - trancava-se nele o dia inteiro, e não deixava que ninguém mais entrasse. Só aquela sua amiga cujo nome começava com a letra 'E' lhe fazia companhia.

Em uma noite, fria por sinal, a casa recebera a visita do espírito do Natal, convidando-a à comemorar e festejar. Mas a menina não desceu.

-Venha, é Natal! Estão todos comemorando! Tenho certeza de que aqui está mais quente do que aí em cima!

-Não posso descer, estou esperando minha estrela cadente. - a menina respondeu.

E então o espírito se foi, deixando-a com sua única amiga.

Vieram, em intervalos de tempo, outros espíritos festivos, mas passaram todos, recebendo a mesma resposta:

- Estou esperando minha estrela cadente.

Até que um dia, passou o Tempo, ligeiro, levando tudo e transformando o que ficou para trás. Este não a convidara para nada - veio enquanto ela dormia, e simplesmente passou.

Quando a menina despertou naquele dia, já não era capaz de se reconhecer no espelho - o rosto enrugado, os cabelos grisalhos, a pele esticada nas mãos... já não era menina, e sim uma senhora.

Estranhamente, sua amiga, ao contrário dela, não envelhecera - continuava do mesmo jeito que quando sentou-se com ela pela primeira noite diante da janela, fitando o céu. Só parecia cansada, e lhe encarava sem demonstrar qualquer emoção.

Como isso havia acontecido, ela se perguntava. O Tempo passou tão ligeiro que ela envelhecera, e ainda não tinha visto sua estrela cadente. Agora, via-se diante de um enorme dilema - se continuasse a esperar, um dia ainda veria sua estrela? E se tentasse retomar o tempo que passara, valeria a pena?

Desesperada, chamou por seus pais e irmãos. Tentou abrir a porta do quarto, mas estava emperrada, e suas mãos velhas já não tinham tanta força. Continuou chamando, mas não obteve resposta. Não havia barulho na casa tampouco, o que a fez concluir que estava vazia, e ele estava sozinha com sua única amiga, da qual agora lembrava o nome: Esperança.

Esta, pronunciando-se pela primeira vez diante do desespero da menina, lhe falou que naquele quarto, havia um baú com objetos mágicos que poderiam ajudá-la.

Mesmo sem saber qual a real função de cada objeto ou o que faria com eles, ela começou a procurar.

Encontrou um baú, e nele dois objetos, à princípio, comuns.

- Esse, é capaz de realizar qualquer desejo seu - disse-lhe a Esperança, pegando nas mãos um tubo daqueles com o qual fazemos bolhas de sabão. - E esse - continuou, pegando agora uma pequena ampulheta - é capaz de te fazer voltar no tempo.

A menina voltou a ter a mesma determinação de antes, e pegou o tubinho de bolhas de sabão. Com o Tempo ela se resolveria depois, agora o que mais importava era sua estrela.

Soprou bolhas e mais bolhas, e estas foram subindo e aproximando-se umas das outras, e juntas, formaram uma figura de início disforme, mas que logo deu formas à um homenzinho cinzento, que mais parecia fumaça - como o gênio da lâmpada de Alladin.

O gênio perguntou qual era o desejo daquela senhora, fazendo com que a menina lembrasse de sua atual aparência, e repensasse se não seria mais prudente ser acertar com Tempo primeiro. Mas logo demoveu-se da ideia e estava determinada outra vez.

- Eu quero ver uma estrela cadente.

O gênio riu da menina - ou melhor, da senhora.

- Como pode nunca ter visto uma?

Ela explicou-lhe que ficara todo aquele tempo ali, sentada, esperando, mas que nunca vira nenhuma cair diante de seus olhos.

- As estrelas são tímidas, minha cara. Gostam de surpreender - o Gênio disse, e depois continuou - Não posso pedir a uma estrela que caia, pois não tenho poder sob as coisas do Universo, e porque é algo natural demais. Mas posso lhe conceder asas, para que encontres sua estrela mais facilmente. Quem sabe se te esconderes no topo de uma nuvem...

A menina não cogitava essa ideia - as nuvens lhe tinham certa antipatia. Mas aceitou as asas, e com elas, subiu bem alto no céu.

Pensou em levar a Esperança consigo, mas decidiu deixá-la ali mesmo.

- Vou ficar lhe esperando - foram suas últimas palavras antes que a velha menina partisse.

Lá no alto, no entanto, sentiu falta da amiga. Não teve paciência de ficar esperando também, afinal, já esperara por tempo demais.

Decidiu subir ainda mais alto, e foi perguntando de estrela em estrela, se alguma delas havia caído recentemente.

Primeiro, lhe explicaram que estrelas cadentes na verdade não eram estrelas de verdade, e sim, pedras gigantes que brilhavam intensamente quando se aproximavam da Terra. E então, começaram a enumerar, e se perdiam na conta de quantas estrelas cadentes haviam cruzado o céu.

- Mas como podem ter caído tantas, e eu não ter visto nenhuma?

- Em que direção olhava? - perguntou uma estrela, no que a menina respondeu: Norte.

- Aí está! Não houveram muitas estrelas cadentes nessa direção por um bom tempo... se tivesse olhado à Sul, teria visto uma chuva delas...

A velha menina, entristecida, deixou-se cair aos pouquinhos. Seus braços já não eram mais tão fortes quanto antigamente, pois já não eram mais uma menina. E continuou caindo, agora aumentando a velocidade... quem sabe, se fosse mais rápida, não lhe tomariam lá embaixo por estrela cadente...

Foi então que viu uma bolha de sabão flutuando ali perto, e juntando a pouca força que ainda tinha, seguiu-a, esperando encontrar mais. Todavia, já estava cansada de esperar pelas coisas, e decidiu agir.

Viu que a bolha ia em direção ao mar - lá embaixo, podia discernir o litoral, o que significava que estava muito longe de casa. Pôde ver ainda uma casinha um tanto afastada, e aproximando-se dela, viu uma caixa de sabão esquecida na varanda. Pegou-a, e a levou em direção ao mar.

O vento estava forte, e ela mal conseguia se manter no alto. Sem demora, jogou todo o sabão da caixa no mar, e o vento ficou feliz em ajudá-la, como se quisesse se desculpar por estar tão violento aquela noite, soprando forte a água salgada e fazendo subir milhares e milhares de bolhas. Tantas, que quando se juntaram para formar aquela figura conhecida, ele era assustador de tão enorme que ficara.

- Você mais uma vez, minha velha? - disse o gênio, e sua voz ressoou como um trovão, o que também o surpreendeu. Ele parecia envaidecido com seu tamanho. As nuvens aglomeravam-se no céu, curiosas quanto ao destino da menina que tanto lhes ofendera.

- Tenho mais um pedido - ela disse, e sem rodeios continuou -, quero voltar para casa, quando ainda era menina e nada sabia sobre estrelas cadentes. Quero voltar no tempo e abraçar meus pais e irmãos mais uma vez. E quero que isso tudo não passe de uma lembrança, ou um sonho... eu só quero ir pra casa... - concluiu, e começou a chorar. As nuvens, comovidas, choravam também.

O gênio, comovido com as lágrimas da menina, e receoso de que as lágrimas das nuvens pudessem desmanchar sua enorme figura, concedeu-lhe logo o pedido, sem nem mesmo dirigir-lhe palavra. Teve tanta pressa, que não transformou aquela triste aventura em apenas lembrança ou sonho. Tirou-a por completo da cabeça da menina, que agora era menina outra vez...



***


Acordou cedo naquele dia, como se tivesse dormido por tempo demais. Deu um beijo de bom dia em seus pais, e a implicância começou cedo com os irmãos. Tomaram o café da manhã e logo já estavam brincando no jardim. Dali a menina viu que a janela do sotão, o quarto mais alto da casa, estava aberta, o que era incomum já que nunca ninguém entrava lá.

Ao crepúsculo, a família sentou-se à varanda e ficou vendo o sol se pôr. Falavam sobre muitas coisas, e falaram sobre estrelas cadentes.

- Nós podíamos ficar lá no sotão esperando elas caírem, seria algo incrível! - exultou o irmão mais novo.

- Ficaríamos tanto tempo esperando que acabaríamos envelhecendo sem nem mesmo nos darmos conta - comentou o pai. Ninguém mais voltou àquela assunto no decorrer da noite.

Quando já era hora de dormir, todos trocaram beijo de boa noite. Era uma noite quente, e a menina pediu que a janela de seu quarto ficasse aberta.

Distraída, olhava o horizonte enquanto o sono não vinha, encantando-se pela beleza do céu estrelado... Uma nuvem passou ligeira, como se não quisesse ser notada ou estragar a bela visão. Dava a impressão de ter uma cara enfezada, como se algo ali a desagradasse ou ofendesse. E logo se foi.

Foi então, que repentinamente, um rastro de luz cruzou o céu, tão rápido e tão brilhante, que em questão de segundos já havia sumido.

Surpresa, a menina lembrou-se do que o pai lhe disse, que envelheceriam de tanto esperar ver uma estrela cadente. E então, em uma noite qualquer e sem aviso, uma lhe surge bem em frente a sua janela...

"As estrelas são tímidas... mas gostam de surpreender..."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

International Friendship Day

Sabia que foi um argentino que 'criou' o Dia do Amigo?


Pra um brasileiro, tá aí um big dilema. Comemorar ou não comemorar? Afinal, existe aquela velha rixa BrasilxArgentina que transcende séculos e séculos de plena animosidade - em suma no meio esportivo.

Se você é capaz de aceitar isso numa boa, o velho Enrique Ernesto Febbraro - difusor do Dia do Amigo - fica muito agradecido, pois aí está uma manifestação legítima de um dos pilares que sustentam o real sentido da amizade - a confraternização pacífica.

Passado esse momento lindo, vamos as origens do dia 20 de Julho.

20 de Julho de 1969, um grande marco para a história da América e do mundo. Estão lembrados desse dia? (tudo bem, grande parte dos meus leitores não tinha nem nascido, mas livros de História estão aí pra isso...) Não? E se eu citar o nome mais importante da data: Neil Armstrong. E que ele tinha uma nave espacial (que na verdade era da Nasa), e que tirou uma foto do seu amigo com a bandeira dos Estados Unidos sabem onde? Na LUA.

Pois sim. Comovido pela chegada do homem a lua, Enrique Febbraro foi tomado por uma imensa vontade de confraternizar, afinal, segundo ele mesmo se empenhou em propagar, a chegada do homem à lua é "um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis."

Pois então qual era a impossibilidade de se enviar cerca de quatro mil cartas para diferentes países e em diferentes idiomas como o intuito exato de estabelecer mundialmente o Dia do Amigo?

Nenhuma.

Mas... quatro mil cartas? Será?

Uma outra versão afirma que só rolou uma festa dedicada a amizade. Seja como for, foi de uma ideia linda e bem intencionada da caixola de velho señor Febbraro que surgiu essa data tão especial.
Vale ressaltar que em 1969, o mundo ainda se encontrava a mercê da Guerra Fria (1945 - 1991), ou seja, vários países travavam conflitos econômicos, territoriais e políticos enquanto rolava solta a corrida armamentista.

Aos poucos, a data começou a ser adotada em vários países. Hoje, quase todo o mundo ressalta o valor da amizade no dia 20 de Julho.

É claro que essa é apenas uma teoria - a mais difundida até então - e exclusiva à data comemorativa.

E qual seria então a origem da amizade?

Historicamente, quem sabe? Pode ter começado quando dois primatas se encontraram na floresta, dividiram um couro de dinossauro rex e a carne de um pterossauro muito apetitoso, deram as mãos e saíram pulando em direção ao riacho pra dar um mergulho - e assim ficaram amigos.

Enfim, a amizade é uma coisa linda, e nada mais digno do que ter um dia só para apreciá-la e lhe dar o devido valor.

Mas a verdade é que dia do amigo é todo dia, e todo mundo sabe. E todo dia é digno de se dar valor; todo dia é digno de se apreciar os princípios e valores básicos da vida, e a amizade é um deles.

Portanto, hoje é o dia em que você pode dizer #felizdiadoamigo. Mas nos próximos dias, tanto quanto foi nos dias antecedentes, o que mais conta é ser amigo, e reconhecer a beleza do ato todos os dias, inúmeras vezes ao dia, porque ser amigo nunca cansa.

Como disse Fernando Pessoa, "É bonito ser amigo."